quarta-feira, 2 de abril de 2025

Um caminho pela colina



Levanto-me da cadeira

e percorro o corredor da casa


como quem segue o trilho da encosta


à procura

de uma outra lonjura

- nada ou abismo -

regresso à cadeira e cismo.




terça-feira, 1 de abril de 2025

In illo tempore



Não me ofereças Rosas

porque murcham


nas jarras


e as pétalas brandamente se soltam

e não mais voltam.



 

segunda-feira, 31 de março de 2025

Até ao fim



É este o movimento do Mundo

ou é a minha mente

em torvelinho -


agora é a hora deste instante que passa


e no Mundo e em Mim

em tudo haverá um fim.



 

domingo, 30 de março de 2025

Um olhar atento



'Spera que o prodígio não é em vão -


e de quantos Caminhos são

de jornada primeira

escolhe aquele


que se abre à Claridade

como uma árvore sem idade.



 

sábado, 29 de março de 2025

Espelho de água



Um som de água levezinho

eu oiço

no meu Caminho


como se se enchesse uma pauta de música

com colcheias


e delas brotasse

um clarão de ideias.

 



sexta-feira, 28 de março de 2025

Tinta acrílica em tela



Entre uma onda e uma onda,

respira

profundamente o Mar


e eu, sílaba a sílaba, 

movimento a movimento,

soletro a Palavra


e respiro


num momento e num momento.



 

quinta-feira, 27 de março de 2025

Recanto



Lá fora, é o Mundo

e a angústia a cada momento


- sofrimento.


Mas há um recanto na vida

que fica entre a tormenta e a bonança

- a Esperança.



 

quarta-feira, 26 de março de 2025

Um dia de cada vez



A exigência do Sol é que o dia corra devagar

para a Luz chegar a cada lugar.


Por isso, abre bem o Coração

para que a Luz toda entre


nesses Caminhos de toda a gente.





terça-feira, 25 de março de 2025

Canção da tarde



Os ciprestes velam os deuses

mortos na batalha


e, nessa dor,

estão vestidos do verde da cor -


mas ao entardecer

quando a luz é mais rara e antiga

são no recorte do Céu uma velha espiga.



 

segunda-feira, 24 de março de 2025

Interiores



Toda a noite não dormi,

viajei


e se em algum lugar me demorei


foi porque aí me confundi

lembrando-me de Ti.



 

domingo, 23 de março de 2025

Passando pelo domingo



Infinitamente real 

o meu Ser

é como um pano vermelho


no estendal de uma janela


- coisa que se fita

e que o vento agita.



 

sábado, 22 de março de 2025

Por inteiro



Imorredoiro,

este tesouro tem oiro -


e não quero prata nem bronze

nem safira


pois brilhante, confesso,

quero ser inteiro como o Universo.



 

sexta-feira, 21 de março de 2025

Morreu um Poeta



Morre o Poeta -

aonde estão os versos?,


que de Saudade, na despedida,


se calaram como a vida

de quem repartiu

cada coisa que um dia viu.




quinta-feira, 20 de março de 2025

Chegou a primavera



Chegou a primavera,

mas, como um rio correndo,


as lágrimas deste dia


lembram o inverno agreste

sem o ímpeto celeste.


 


quarta-feira, 19 de março de 2025

Algures por aí



Tropeço primeiro na sílaba frágil

e dócil, sem ter caído, 

estremeço este novo sentido.




terça-feira, 18 de março de 2025

As pequenas coisas



O orifício da agulha faz-me pensar

na linha de bordar

na linha de coser


e no pano de alinhavos


que os mais pobres sabiam ter 

no abrigo para viver.




segunda-feira, 17 de março de 2025

Uma só árvore



A fadiga dos dias e o cansaço

das horas sem fim


são a semântica da evasão

deslumbre na imensidão.






domingo, 16 de março de 2025

Rumor de chuva



Quase silenciosa, a chuva tomba na calçada

e eu pressinto que é capaz


de nesse quase silêncio ser um rio


e eu como que à proa de um rochedo

navego sem medo -

estranho é este segredo. 




sábado, 15 de março de 2025

A chegada



Antes de partir, eu cheguei,

porque quem chega


sempre está nalguma parte

e essa é a minha Arte.



 

sexta-feira, 14 de março de 2025

Folha



Na folha agora perdida,

havia,

e eu sabia-o,


o movimento dos astros no universo -


esperança em balança

dor em peixes


e eram puras a esperança e a dor

e no homem o seu esplendor.

 



quinta-feira, 13 de março de 2025

Além



As gotas de chuva nos meus cabelos

e o ar gélido que me toca


são no silêncio o silêncio de coisa morta -


e, sim, importa, sim, perceber

que tudo o que nasceu

também um dia morreu.