Levanto-me da cadeira
e percorro o corredor da casa
como quem segue o trilho da encosta
à procura
de uma outra lonjura
- nada ou abismo -
regresso à cadeira e cismo.
Digressão Poética
Levanto-me da cadeira
e percorro o corredor da casa
como quem segue o trilho da encosta
à procura
de uma outra lonjura
- nada ou abismo -
regresso à cadeira e cismo.
Não me ofereças Rosas
porque murcham
nas jarras
e as pétalas brandamente se soltam
e não mais voltam.
É este o movimento do Mundo
ou é a minha mente
em torvelinho -
agora é a hora deste instante que passa
e no Mundo e em Mim
em tudo haverá um fim.
'Spera que o prodígio não é em vão -
e de quantos Caminhos são
de jornada primeira
escolhe aquele
que se abre à Claridade
como uma árvore sem idade.
Um som de água levezinho
eu oiço
no meu Caminho
como se se enchesse uma pauta de música
com colcheias
e delas brotasse
um clarão de ideias.
Entre uma onda e uma onda,
respira
profundamente o Mar
e eu, sílaba a sílaba,
movimento a movimento,
soletro a Palavra
e respiro
num momento e num momento.
Lá fora, é o Mundo
e a angústia a cada momento
- sofrimento.
Mas há um recanto na vida
que fica entre a tormenta e a bonança
- a Esperança.
A exigência do Sol é que o dia corra devagar
para a Luz chegar a cada lugar.
Por isso, abre bem o Coração
para que a Luz toda entre
nesses Caminhos de toda a gente.
Os ciprestes velam os deuses
mortos na batalha
e, nessa dor,
estão vestidos do verde da cor -
mas ao entardecer
quando a luz é mais rara e antiga
são no recorte do Céu uma velha espiga.
Toda a noite não dormi,
viajei
e se em algum lugar me demorei
foi porque aí me confundi
lembrando-me de Ti.
Infinitamente real
o meu Ser
é como um pano vermelho
no estendal de uma janela
- coisa que se fita
e que o vento agita.
Imorredoiro,
este tesouro tem oiro -
e não quero prata nem bronze
nem safira
pois brilhante, confesso,
quero ser inteiro como o Universo.
Morre o Poeta -
aonde estão os versos?,
que de Saudade, na despedida,
se calaram como a vida
de quem repartiu
cada coisa que um dia viu.
Chegou a primavera,
mas, como um rio correndo,
as lágrimas deste dia
lembram o inverno agreste
sem o ímpeto celeste.
Tropeço primeiro na sílaba frágil
e dócil, sem ter caído,
estremeço este novo sentido.
O orifício da agulha faz-me pensar
na linha de bordar
na linha de coser
e no pano de alinhavos
que os mais pobres sabiam ter
no abrigo para viver.
A fadiga dos dias e o cansaço
das horas sem fim
são a semântica da evasão
deslumbre na imensidão.
Quase silenciosa, a chuva tomba na calçada
e eu pressinto que é capaz
de nesse quase silêncio ser um rio
e eu como que à proa de um rochedo
navego sem medo -
estranho é este segredo.
Antes de partir, eu cheguei,
porque quem chega
sempre está nalguma parte
e essa é a minha Arte.
Na folha agora perdida,
havia,
e eu sabia-o,
o movimento dos astros no universo -
esperança em balança
dor em peixes
e eram puras a esperança e a dor
e no homem o seu esplendor.
As gotas de chuva nos meus cabelos
e o ar gélido que me toca
são no silêncio o silêncio de coisa morta -
e, sim, importa, sim, perceber
que tudo o que nasceu
também um dia morreu.