Choveu.
Hoje clareia.
E cada momento em que estou
(de tristeza e de alegria)
faz-me sentir que a cada dia
eu espero
por uma água virginal
que não seja tão desigual.
Digressão Poética
Choveu.
Hoje clareia.
E cada momento em que estou
(de tristeza e de alegria)
faz-me sentir que a cada dia
eu espero
por uma água virginal
que não seja tão desigual.
Um corropio de aves segue o ribeiro,
ora acima, ora abaixo,
ora escoaçando alto no Céu;
e eu sem ver
estas aves do meu Ser.
O aeroplano segue a rota no céu
e deixa um rasto branco
atrás de si -
também um livro segue uma rota
e o que de si brota
é o que importa.
Um fio de silêncio sai do saibro
ou da espada
no ato de contender -
e, nas alturas, o Ser,
sem lutar,
escuta só o seu vibrar.
Na guerra, na terra, no mar, no ar,
no profundo,
não há senhores do Mundo.
Não, não é nova esta ferida,
está na terra
e se escancara
- não é estranha, mas é rara.
Rasguei as epopeias
e todos os versos inquinados
que vindos do passado
mourejavam
na penumbra das noites -
e, agora?,
quando chegar a hora,
apenas minha Alma Te adora.
Peregrina
sem devoção
vou em busca de uma oração
grata
como quem agradece
ter apenas uma prece.
Entretenho-me a medir o tempo
crescente minguante lua nova lua cheia
e neste algoritmo da medida
assim
se esvai a minha vida.
Acendo a luz do candeeiro,
que está em cima
da mesa,
e deixo-me atravessar,
devagar,
pelo brilho incandescente da lâmpada,
até que chegue o luar
branco
e frio,
e o meu corpo vazio sinta o arrepio.
Num instante, a terra reluz -
é a roseira
no roseiral na terra do meu quintal.
E com as minhas mãos
eu planto na terra
obreira
a Rosa primeira.
em memória de A.L.A.
Quando me cantavas
aquela Canção
e era a tua voz mais forte
que o tempo,
parece que não havia morte
e era tudo
um vento Norte.
Há mil dias
que as manhãs são frias
e o inverno interminável
não morre
antes de colher toda a Dor
e antes de nascer a primeira Flor.
É lento o tempo da memória
mais lento ainda
quando o dia finda
e a penumbra parece que vai
tolher o alento
que guarda o pensamento.
Antes de me dizeres
que é o tempo do anoitecer,
embala-me
e faz-me uma trança
nessa vide de esperança
que foi plantada de mansinho
na beira do meu Caminho.
Do alto da colina
corre
um cortejo de estrelas
e eu imagino uma orquestra
no meio
da floresta
cuja música se eleva a incensar
todo o firme instante que há de acabar.
O instante que passa
não volta
por isso habito um tempo revoltado
contra tudo
que é só sonhado.
É nas entrelinhas que eu quero escrever
toda a força do meu viver
e se escrevo
eu noto bem que cada Palavra
me leva
para Além.
Atravessa esta paisagem
o voo
translúcido e sereno das aves fugitivas
que no lugar do Sonho
são o movimento
breve
de todo o pensamento mais leve.
O ruído, a chama, a revolta
tumulto
aqui à porta
é breve imagem
da humana passagem
- que também Ulisses a guerra recusou -
mas o destino obra a memória
de haver num outro ser um mesmo viver.
Dispo o casaco,
mas tenho
frio -
enrolo-me num cobertor,
mas sinto
calor -
penso num verso e se desfaz a Poesia
- triste a Alma vazia.
Que é feito do movimento do Mar?,
tão dúctil
a espraiar-se na areia
e que leva para o mais fundo
todo o mal do mundo.