A pérola
e o pescador
como no fio do pensamento
o gesto
são o sublime par
de Amar.
Digressão Poética
A pérola
e o pescador
como no fio do pensamento
o gesto
são o sublime par
de Amar.
Voltei.
E vejo agora que tudo permanece igual.
É esta a eternidade
que eu anseio encontrar
num lugar
em Mim
para dizer: «Sou enfim».
No tempo de ser Criança,
o Longe
no horizonte
tinha a mais bela fonte
e dela jorrava a límpida água
que num gole saciava -
perdeu-se o Longe (secou a fonte)
onde estás, meu horizonte?
Os que saem de casa
ainda na noite
dia a dia mortificam -
e até as crianças, meu deus,
nesta labuta
da vida
são gente crescida.
Temperano, como no tempo
da minha mocidade,
o dia
tem mais verdade
quando passa
agora
e eu não sei a hora.
Quero jóias e pedras de ónix
a debruarem
a linha do cimo da encosta -
e o que escondem
os deuses passando devagar
é a riqueza deste Lugar.
Algures, no Mundo,
um bombardeio
fere
a manhã por inteiro;
e sou eu feliz?,
na terra
onde não há guerra?
Voltei de Mim
e trouxe da viagem
um ramo florido
de um tempo ainda não nascido -
e por sem razão
não sei dizer
como pôde acontecer.
A musa é uma varina
e um cauteleiro também
é um canto
que nos ensina
a viver aqui e para Além.
Dia e Noite que se renovam
numa harmonia
perfeita
e crescerá a Luz
e será maior o Dia
no tempo vindouro
és tu, Criança, meu ouro.
em memória do meu Pai
Foste raiz de uma outra raiz
e o Céu
porque quis
levou-te a seres Feliz.
Em folhas de papel te escrevo,
ó Poeta,
que das mil faces descobertas
foste único
e real
neste Portugal.
O rosto do dia
está emoldurado neste verso
e sorri
para Mim
agora que a tarde chega ao fim.
As louças e os talheres da moda
as mobilias e os sofás
e tudo o que numa casa jaz
são como
o enxerto e a poda
neste pensamento nudo
perfeito
na minha mente
que habita só no presente.
Choveu.
Hoje clareia.
E cada momento em que estou
(de tristeza e de alegria)
faz-me sentir que a cada dia
eu espero
por uma água virginal
que não seja tão desigual.
Um corropio de aves segue o ribeiro,
ora acima, ora abaixo,
ora esvoaçando alto no Céu;
e eu sem ver
estas aves do meu Ser.
O aeroplano segue a rota no céu
e deixa um rasto branco
atrás de si -
também um livro segue uma rota
e o que de si brota
é o que importa.
Um fio de silêncio sai do saibro
ou da espada
no ato de contender -
e, nas alturas, o Ser,
sem lutar,
escuta só o seu vibrar.
Na guerra, na terra, no mar, no ar,
no profundo,
não há senhores do Mundo.
Não, não é nova esta ferida,
está na terra
e se escancara
- não é estranha, mas é rara.
Rasguei as epopeias
e todos os versos inquinados
que vindos do passado
mourejavam
na penumbra das noites -
e, agora?,
quando chegar a hora,
apenas minha Alma Te adora.
Peregrina
sem devoção
vou em busca de uma oração
grata
como quem agradece
ter apenas uma prece.