No deserto do Mundo, me agito
sem resposta -
para o Mar caminha o rio,
e eu?, que não sou rio.
Digressão Poética
No deserto do Mundo, me agito
sem resposta -
para o Mar caminha o rio,
e eu?, que não sou rio.
As nuvens altas
no Céu
são de seda carmesim
pura e radiosa morada
dos deuses que estão a tecer
as dores
que têm os seres.
Horas do tédio
e uma profunda lassidão
eterniza-se em Mim
e não me deixa ser
senão no momento do entardecer.
Branca é a Noite,
quando o Sonho por ela passa,
ó cheia de graça,
Mulher das flores nos caminhos,
não nos deixes sozinhos.
Por onde vagueia a tristeza,
quero estar
no opróbio dos dias -
como quem escreve nas entrelinhas
e as Palavras são minhas.
Subtraio ao pensamento
o momento
mais belo do dia,
que, como num canto de cotovia,
a Paz anuncia,
e nessa subtração resta apenas aquela hora
em que a dor não se vai embora.
A sala, Coração da vida,
tem uma palmeira verdadeira
e tudo nela é contente;
quando tão de repente uma mancha
roxa lilás
se espalha por todo o lado
e lembra que há o Fado.
Nas mil pétalas de rosas no chão,
roda o pião
e não para de girar
como se aí para sempre quisesse estar.
Queria apenas uma estrela,
mas no meu Coração
cintilam
miríades de sóis infernais
e isso é demais.
Demora a soletrar a palavra «mar»,
num encapelado
de ondas
que vêm na maré
e que estão aqui ao pé.
Queria mudar o olhar
e ver
no Mundo a haver
um quase nada de lembrança
daquele roseiral
que é paraíso sem mal.
Qualquer ângulo da minha vida
me entristece
esquina na qual a infância se perdeu
Longe do Céu
indiferente
à Dor da gente
- mas oiço crianças nas traseiras da casa
a serem Felizes por um instante
e, então, desses seres eu sou amante.
Não posso inventar o Poema.
Ele nasce quando consola
e afugenta
a meia-luz da mágoa;
e, depois, sozinho,
ei-lo que forja um caminho.
A viagem é longa
e o tempo é pequeno
tão pequeno que cabe na minha mão
a madrugada que é quase nada
o Lugar de Mim,
quando o sono chega ao fim.
Grande é a Noite
e a dor
e a flor que vi
na jarra morreu
ou foi no jardim
mais próximo do Céu?
Tudo o que vivi
foram momentos de graça
por onde a Vida passa
ao de leve
parecendo que o tempo
é tão breve.
Chego de uma viagem em Mim
e parece-me estonteante
cada degrau que tenho por diante
e que eu subo
sem glória
nem réstia de vitória.
A colheita no ramo
é a safra
de fé
e de pureza
que existe na Natureza.
Tudo é quimera
na vida,
e até a bela adormecida
dormiu o sono dos justos
para depois acordar,
afinal,
sem o destino celestial.
Apenas aqui,
neste centro sem fim,
infinitamente se consente
a memória
de um maio maduro
passado presente e futuro.
Medito por fora
ponho as mãos em oração
mas cá dentro, no Coração, é tão árido
o meu sentir,
que até parece um rio que não pode vir.