Peregrina
sem devoção
vou em busca de uma oração
grata
como quem agradece
ter apenas uma prece.
Digressão Poética
Peregrina
sem devoção
vou em busca de uma oração
grata
como quem agradece
ter apenas uma prece.
Entretenho-me a medir o tempo
crescente minguante lua nova lua cheia
e neste algoritmo da medida
assim
se esvai a minha vida.
Acendo a luz do candeeiro,
que está em cima
da mesa,
e deixo-me atravessar,
devagar,
pelo brilho incandescente da lâmpada,
até que chegue o luar
branco
e frio,
e o meu corpo vazio sinta o arrepio.
Num instante, a terra reluz -
é a roseira
no roseiral na terra do meu quintal.
E com as minhas mãos
eu planto na terra
obreira
a Rosa primeira.
em memória de A.L.A.
Quando me cantavas
aquela Canção
e era a tua voz mais forte
que o tempo,
parece que não havia morte
e era tudo
um vento Norte.
Há mil dias
que as manhãs são frias
e o inverno interminável
não morre
antes de colher toda a Dor
e antes de nascer a primeira Flor.
É lento o tempo da memória
mais lento ainda
quando o dia finda
e a penumbra parece que vai
tolher o alento
que guarda o pensamento.
Antes de me dizeres
que é o tempo do anoitecer,
embala-me
e faz-me uma trança
nessa vide de esperança
que foi plantada de mansinho
na beira do meu Caminho.
Do alto da colina
corre
um cortejo de estrelas
e eu imagino uma orquestra
no meio
da floresta
cuja música se eleva a incensar
todo o firme instante que há de acabar.
O instante que passa
não volta
por isso habito um tempo revoltado
contra tudo
que é só sonhado.
É nas entrelinhas que eu quero escrever
toda a força do meu viver
e se escrevo
eu noto bem que cada Palavra
me leva
para Além.
Atravessa esta paisagem
o voo
translúcido e sereno das aves fugitivas
que no lugar do Sonho
são o movimento
breve
de todo o pensamento mais leve.
O ruído, a chama, a revolta
tumulto
aqui à porta
é breve imagem
da humana passagem
- que também Ulisses a guerra recusou -
mas o destino obra a memória
de haver num outro ser um mesmo viver.
Dispo o casaco,
mas tenho
frio -
enrolo-me num cobertor,
mas sinto
calor -
penso num verso e se desfaz a Poesia
- triste a Alma vazia.
Que é feito do movimento do Mar?,
tão dúctil
a espraiar-se na areia
e que leva para o mais fundo
todo o mal do mundo.
Ao Longe, o casario brilha ao sol da tarde
e eu penso que em Mim arde
uma vontade
de correr pela encosta acima
para encontrar uma rima.
O meu sorriso preferido
é o Teu
que é um instante de Luz
e atravessa a floresta
onde uma árvore empresta
o verde o tempo da cor
a Ti, meu Amor.
Lá onde mora o esquecimento
é que eu quero estar -
imóvel Flor
que fita no horizonte
o seu esplendor.
Branca
Imaginação,
tu que corres a cada passo
num enleio que eu Abraço,
vem
e traz a Liberdade
à Ideia que em Mim arde.
A primeira pessoa,
nós
que somos pó e do pó nos aproximamos
tomamos as oliveiras dos ramos
e partimos
como quem busca
encontrar
uma terra firme noutro lugar.
para o Viriato
no dia do seu Aniversário
O ser que respira em nós
(através de nós)
espreita o nosso pensamento
e brinca num espírito
veloz
com a nossa ideia de que estamos sós.