Talvez, muito longe, um dia,
possa no Mundo
haver aquela Alegria
de estar
tão perto do Mar
que seremos rochedos
sem medos
na imóvel quietação
de termos só Coração.
Digressão Poética
Talvez, muito longe, um dia,
possa no Mundo
haver aquela Alegria
de estar
tão perto do Mar
que seremos rochedos
sem medos
na imóvel quietação
de termos só Coração.
Acalma a Alma,
nenhuma Dor tem o mal intemporal -
e se a leve brisa
é agora uma nortada
deixa-a ventar,
o vento há de acabar.
À tua beira, a Paz medra sempre,
não há o ser diferente,
porque abraças toda a gente -
então, por que razão
tu, ó plena de glória,
no mundo não cantas vitória?
Naveguei apenas num mesmo Mar,
apenas lugar
de Mim -
e parece que pelo Mundo
eu corri
de braços abertos
pelos caminhos incertos.
A avó tinha o contorno suave
de quem viveu
e sofreu
as dores do mundo verdadeiro -
este
que é mais do que nós
quando não temos uma voz.
Atrás ficou a Palavra imperfeita,
a que nunca
até hoje desvendei -
e nos caminhos por onde ando
no vocabulário eu procuro
vocábulo novo e puro
que arremede na perfeição
a Palavra Coração.
Tudo esquece - até o calor -,
e agora que há esta fresquidão
penso para Mim
como é sábia a sazonalidade
e também
a provecta idade.
Cantava um ribeiro
aqui à porta
e era um sopro de vida em Mim -
tempo foi,
e, na eternidade do que é,
vazou o ribeiro,
e calou-se,
e eu querendo que o ontem hoje fosse.
em memória de Luís Represas
Com vagar, com vagar,
canta devagar
agora que encontraste o Destino dos homens
e o seres de alma engrandecida
aquilo que foste em vida.
Diz-me o anjo ao ouvido
o segredo
da brisa que no meu rosto toca -
tátil, não a posso agarrar,
mas a sei
como sei do pensamento,
quando é mais leve num momento.
Estrela a estrela
no papel
nenhuma igual
cada uma diferente
como acontece entre a gente.
Vem à tardinha uma Consciência
de Mim
agradecida
pela romagem
pela sina
e pela estalagem.
Aqui, onde a água e a argila
são o magma da força,
escuto
o pulsar do vento
nas velas do moinho de Quixote,
e é a mesma sorte:
combato a ilusão
no centro do Coração.
Tenho a chávena nas minhas mãos,
por um instante apenas,
o tempo de um gole
de café -
e, depois, pouso-a delicadamente
na mesa,
na certeza de que ela
é única
e irrepetível
como tudo o que é perecível.
Não deixes para depois
sentir
o que agora é
- pisa a flor com o pé -
e heroico no humano gesto
enfrenta o segredo
que tem todo o medo.
Rasgo as folhas de papel,
escritas
com as palavras magoadas,
e deixo que o fogo da vida purifique
o símbolo que é
ser cinza
e depois renascer
e novamente escrever.
Sem nunca ter partido, voltei
e, neste regresso,
me demorei -
que santo me protegeu?,
que anjo me guardou?,
que aqui onde eu estou
há perigos como penhascos
que nus escalamos
sempre que voltamos.
A rosa amarela é bela
e espanta
no seu sossego de flor -
virá o tempo virá
e num amarelo esmorecido
perderá a flor o sentido.
Distraio-me a ver o Mar
que é réstia
do pensamento -
ver o Mar por dentro
me parece
ser a descoberta
que é livre e dura
no mais perto da lonjura.
Tudo o que me rodeia
é afinal uma teia
de maravilha erguida
- acaba e começa
como se a aranha soubesse
o que ao mundo esquece.
Esqueceu-se-me o destino,
esqueci-me
do lugar onde devia ser
memória
de Caminho
de estar e permanecer.