Singra neste mar o pensamento
longínquo
de que a terra, meu país,
é Milagre
de um frágil amanhecer
de onde (para o mundo) a paz pode acontecer.
Digressão Poética
Singra neste mar o pensamento
longínquo
de que a terra, meu país,
é Milagre
de um frágil amanhecer
de onde (para o mundo) a paz pode acontecer.
Sentiria a imensidão das horas,
se acaso me dissesses
que não valem a pena
o Sonho
a Esperança
no rosto duma Criança.
O vento fala
e o riacho gorgoleia
é a terra
a despertar
com a confiança
de um recomeçar.
Neste cais onde não há navios,
tenho um Mar
e esse Mar está preso na minha Imaginação
não ondula não tem maré
está sepultada
a maresia
e a mão com que escrevo está fria.
Todos os dias
os rostos se repetem
e são cópias indiferentes
dum Mundo
que sabota a Coragem
e adormece o Coração
para não despertar a Razão.
Vem a chuva na madrugada,
um quase nada,
que refrescou as árvores em ânsias
de um beber
logo pelo amanhecer.
Como uma sombra
que na Luz se desdobra,
a Imaginação
é um Arco de mil voltas
do desassossego
que eu preciso
para encontrar o paraíso.
Se sonhei?,
como só uma vez,
folhetim de noites brancas,
na madrugada iria
o meu Ser
tão Longe que fosse
à procura
do Cavaleiro da armadura.
Uma nuvem a passar
num voo
de pássaro
e a roupa num estendal
colorida -
é este o movimento da vida -
ver para Além
talvez
quando alguém um Verso fez.
Abro a janela e vejo o Mundo
e todo me parece
uma adivinha
de saber
o que se pode conhecer.
Às vezes, o destino ri-se
do nosso tanto
esperar
por alguma coisa cujo fim é acabar -
mas perfeito
é cá de dentro do peito
sair
uma Flor a abrir.
Escuto-me
na ladainha que vai e vem
e é atroz esse ouvir
na nudez crua do sentir
que eu sou
sem saber para onde vou.
Tempo de ver
e tempo de aprender
mais
e mais na vida
me parece o bastante
para ocupar cada instante.
Há cheiro a alfazema nas gavetas
da memória -
lembrança de gente do pão quente
da terra húmida lavrada -
por que não conheço?, agora,
a gaveta onde se guarda
o Sonho que vive
apenas na infância que eu tive.
Conhecer
na humanidade,
e em cada um e em si,
a suma Verdade,
é árduo e inglório também,
pois a nossa natureza está para Além.
E o rio?, vai para aquele cais,
onde os viajantes
fazem a despedida
dos que amam nesta vida -
e corre,
sempre a correr,
como se não houvera de morrer.
Finito é o instante
que pode
sempre acabar
antes de no pensamento te achar
pedra árvore vento
mar da distância conquistada
traz a este verso alento
e sê minha morada.
A natureza do Sonho
esvaído
solidifica-se na Realidade afinal -
tudo é um Sonho ido
- somos de um tempo sem igual.
O modo de ver
e crer
é uma aventura da alma
por isso me sento no banco do jardim
esperando
ver e crer em Mim.
Entontece-me a tarde
que não é noite nem manhã
e que não se define num acordar
nem num adormecer
porém é tempo de viver.
Os dias são mais pequenos -
o tempo
encurta cada página da vida
e a nossa história que contamos
sem engano
nem rasura
dura porque dura.