para o Viriato
no dia do seu Aniversário
O ser que respira em nós
(através de nós)
espreita o nosso pensamento
e brinca num espírito
veloz
com a nossa ideia de que estamos sós.
Digressão Poética
para o Viriato
no dia do seu Aniversário
O ser que respira em nós
(através de nós)
espreita o nosso pensamento
e brinca num espírito
veloz
com a nossa ideia de que estamos sós.
Não há Poesia
por mais simples que seja
que não se entorne nas margens dum regato
sonhando o Mar
com a cor do seu pensar.
para o Tiago
no dia do seu Aniversário
Constante, a paisagem do dia
é um Jardim
límpido
e tão claro
que só nele apetece estar
antes da eternidade chegar.
Creio, ó deuses, que a brisa
quando passa
abre o Caminho às aves silenciosas
que voando e adejando
levemente
vivem sempre no presente.
Também as vozes alheias
se parecem
com o Silêncio
que acredito
nos conduz ao Infinito.
Sempre suave,
soa
o mistério
dentro do pensamento
- a ideia de onde vem?,
em Mim, penso, mas estou Além.
O desvio no Caminho não tem importância,
pois a gente que encontro
reluz
e é assim que reparo
como um dia de sol é raro.
Passeias no quintal
e é inverno
passeias num passeio eterno
que se demora
antes de se acabar
a começar
e contigo nada podes levar.
Toda a Poesia nasce duma bruma
ligeira,
que turva o olhar a começar;
e é nevoento o pensamento
e é brumosa a ideia,
que só brota límpida, clara,
quando se escava uma terra rara.
É maior que o campo e as avenidas
este corre que corre
sem medida
é a Vida -
o mistério de ser
e de morrer.
Acalma, vento,
não me varras por dentro
que o pensamento quer harmonia
e o sinal da chuva,
nesta manhã tão fria,
é o cinzento
da cor,
moléstia de uma dor.
Quando a lassidão nos prega ao chão,
e não há uma memória
que cortezmente nos leve para a frente,
singrar
é um momento sem par,
é erguer-se a píncaros rochosos
e aí construir
universos novos.
Não confundo,
neste cabo profundo,
o gentil Amor com a ilusão -
porque em Mim
tenho o alento
de que é a Beleza o alimento.
O paquete lá vai,
faz o seu Caminho por entre as vagas
e de ilha em ilha de continente em continente
a Coragem que vence o pavor
molda o Ser
nesse mesmo ardor.
Era uma Rosa a abrir
e floriu
como se houvesse uma primavera
no instante de florir
e sem pensar
no inverno a adensar.
Por entre os edifícios, há uma nesga
de Cor.
É o verde das árvores,
agora despidas,
que eu respiro
em profundas golfadas de vir a ser
num outro tempo num outro viver
e tudo é verde no meu querer.
Pouco importam a chuva a neve
o lugar vazio,
se, no Silêncio da Noite, ó Clara imensidade,
tu derramas, no meu espírito, a Verdade.
Agora que anoitece deixo da alvorada
o segredo do dia
e limpo os recantos da Alma
devagar
para poder Amar.
Atravessa a distância
essa ínfima razão
que está bem no centro do coração -
e logo esquece
que pensar
traz a mágoa
aos olhos rasos de água.
Fazes da vastidão das searas
o teu Silêncio,
e a minha chávena com café esfria
até não apetecer bebê-lo,
mas bebo. Sorvo esta negra bebida
como quem sorve
a sua negra
vida.
Colho cada página,
como quem colhe aquela Flor
e o seu fragor incensa uma mão lisa -
e na calma limpa de tempestade
a Flor mira a eternidade
divina
na Luz que a ilumina.