Fui ver as coisas do Mar,
o cheiro
a maresia
e a fresquidão da espuma,
para encontrar a minha Alma de vigia
na imensidão da bruma -
e então senti-me a renascer,
tão mais perto
do meu Ser,
que me parece que enfim estou a viver.
Digressão Poética
Fui ver as coisas do Mar,
o cheiro
a maresia
e a fresquidão da espuma,
para encontrar a minha Alma de vigia
na imensidão da bruma -
e então senti-me a renascer,
tão mais perto
do meu Ser,
que me parece que enfim estou a viver.
Não te importes
com o máximo rigor da Sorte,
que na terra tens conseguida,
é esta a Lei da vida -
e só se alcança a bem-aventurança,
um cantinho no Céu,
quando límpido e sereno
o grande se faz pequeno.
Para que não digas que não falo de flores,
dobro a esquina e vejo
um estendal de muitas cores -
o amarelo o rosa o violeta
nas roupas estendidos
e num adorno no parapeito
o vaso do amor-perfeito.
Dormi tanto que senti
uma tristeza por dormir -
no Longe a vida a acontecer
e eu numa espécie de morrer.
Ó Ulisses,
se agora de novo viesses,
e à tua Ítaca trouxesses coragem intrépida
e heroica majestade,
venceria todo o homem o ardor da tempestade.
Desenho o algoritmo da espera
e nessa quimera
de não te ter
se esvai o meu viver.
Olhei-te primeiro com uma Palavra muda
que dizia para escutares
tudo o que pudesses amar
e assim era
quando na primavera
as cerejas vermelhas de tanto luzir
no Céu nos fazem sentir.
Às vezes, até parece que as copas das árvores
ofuscam a claridade dos Céus,
mas é engano.
O clarão que vem do alto
brilha sempre e é maior
que toda a sombra que é fronteira
com a luz primeira.
No deserto do Mundo, me agito
sem resposta -
para o Mar caminha o rio,
e eu?, que não sou rio.
As nuvens altas
no Céu
são de seda carmesim
pura e radiosa morada
dos deuses que estão a tecer
as dores
que têm os seres.
Horas do tédio
e uma profunda lassidão
eterniza-se em Mim
e não me deixa ser
senão no momento do entardecer.
Branca é a Noite,
quando o Sonho por ela passa,
ó cheia de graça,
Mulher das flores nos caminhos,
não nos deixes sozinhos.
Por onde vagueia a tristeza,
quero estar
no opróbio dos dias -
como quem escreve nas entrelinhas
e as Palavras são minhas.
Subtraio ao pensamento
o momento
mais belo do dia,
que, como num canto de cotovia,
a Paz anuncia,
e nessa subtração resta apenas aquela hora
em que a dor não se vai embora.
A sala, Coração da vida,
tem uma palmeira verdadeira
e tudo nela é contente;
quando tão de repente uma mancha
roxa lilás
se espalha por todo o lado
e lembra que há o Fado.
Nas mil pétalas de rosas no chão,
roda o pião
e não para de girar
como se aí para sempre quisesse estar.
Queria apenas uma estrela,
mas no meu Coração
cintilam
miríades de sóis infernais
e isso é demais.
Demora a soletrar a palavra «mar»,
num encapelado
de ondas
que vêm na maré
e que estão aqui ao pé.
Queria mudar o olhar
e ver
no Mundo a haver
um quase nada de lembrança
daquele roseiral
que é paraíso sem mal.
Qualquer ângulo da minha vida
me entristece
esquina na qual a infância se perdeu
Longe do Céu
indiferente
à Dor da gente
- mas oiço crianças nas traseiras da casa
a serem Felizes por um instante
e, então, desses seres eu sou amante.
Não posso inventar o Poema.
Ele nasce quando consola
e afugenta
a meia-luz da mágoa;
e, depois, sozinho,
ei-lo que forja um caminho.
A viagem é longa
e o tempo é pequeno
tão pequeno que cabe na minha mão
a madrugada que é quase nada
o Lugar de Mim,
quando o sono chega ao fim.