Sem nunca ter partido, voltei
e, neste regresso,
me demorei -
que santo me protegeu?,
que anjo me guardou?,
que aqui onde eu estou
há perigos como penhascos
que nus escalamos
sempre que voltamos.
Digressão Poética
Sem nunca ter partido, voltei
e, neste regresso,
me demorei -
que santo me protegeu?,
que anjo me guardou?,
que aqui onde eu estou
há perigos como penhascos
que nus escalamos
sempre que voltamos.
A rosa amarela é bela
e espanta
no seu sossego de flor -
virá o tempo virá
e num amarelo esmorecido
perderá a flor o sentido.
Distraio-me a ver o Mar
que é réstia
do pensamento -
ver o Mar por dentro
me parece
ser a descoberta
que é livre e dura
no mais perto da lonjura.
Tudo o que me rodeia
é afinal uma teia
de maravilha erguida
- acaba e começa
como se a aranha soubesse
o que ao mundo esquece.
Esqueceu-se-me o destino,
esqueci-me
do lugar onde devia ser
memória
de Caminho
de estar e permanecer.
Na pedra dura e mecânica
dos ossos
é que eu me sustento -
nada mais me dá o alento,
nem sequer
o relógio de areia
que soma o tempo nesta teia.
A matéria mágica da multidão
é o seu movimento
e sentido
todos vão na mesma direção
todos olham a mesma vastidão
mas no ir e no olhar
falta ao homem sempre um par.
Planto árvores,
à hora em que os outros dormem
o sono mais justo,
e escuto, no silêncio profundo da noite,
um novo dia a nascer
com a seiva do meu próprio Ser.
Podia ser um eco
esse som metálico e frio
que gorgulha no meu peito
quando
é a lei e a razão
que domina o meu Coração.
Sólida e real, a tarde esvai-se
no meu puro ser
como coisa descalça e nua
que quebra e pisa
a rigidez desta brisa.
Quando pisava a terra,
a fada
crescia logo para o Céu
e era gigantesca numa forma delicada,
magenta e esbranquiçada,
e no jardim mais bonito
não escutava dos homens o grito.
No pódio do mundo vive a morte,
fome e guerra é um desporte
que nem os deuses
fantasiam,
no seu ato de Sonhar
e no seu muito Imaginar.
Que passo que ainda não dei
me levará
àquela altura
de ver e de ouvir apenas -
tudo o mais é cansaço
e pouco importa o regaço
que acolhe
a Palavra nascida
da minha Alma ferida.
Não era um rio qualquer.
Serpenteava
pelas mágoas
e se debruçava sobre a dor;
e margem a margem,
limpa e nua,
a corrente
era uma água como a gente.
Fecho com força a janela
para que não entre
por ela
esta cor de carmesim
de fim de tarde -
e para que a esperança que em Mim arde
em glória seja nascida
no azul do Céu desta vida.
Se as flores se acostumassem
à prisão de uma jarra,
certamente
não haveria queixume
e a fragrância do seu perfume incensaria
esta vida
sem uma tristeza sofrida.
Este vento brando
que sopra quando sopra
me aquieta e me sossega
como fluxo e refluxo de um Mar
sempre a partir e a chegar
à areia e à Dor
com um estranho esplendor.
«O que procuras?», diz a voz
no meu Coração
e eu não sei que loucuras
me fazem viver assim
em vão -
assim como quem sempre recomeça
uma vida que já está impressa.
Pulsa o sagrado em Mim,
quando caminho nessa estrada
de terra enlameada
a lembrar que a argila e o pó
é princípio e fim
de todos nós.
Quem se senta à minha mesa?,
para me trazer a Beleza
do que a vida contém -
um cacho de uvas e o pão,
malvasia, sopa, e melão -
oh, como vive em Mim a saudade
do tempo da mocidade,
em que à mesa o tempo era perfeito,
e em que cada ser se sentia eleito.
Fecho os olhos e sento-me
no degrau
à beira da porta -
passa por Mim a festa, que importa!,
se no rosário deste dia
nasceste
e tarde conheci
as dores que em ti vi.