Semeia e viaja,
e verás
no campo florir
como um mistério
o teu sentir.
Digressão Poética
Semeia e viaja,
e verás
no campo florir
como um mistério
o teu sentir.
As pedras rasgando o solo
vincam a raiz
que sustenta o tronco da árvore,
e parece que entre a pedra e a raiz
está o que deus quis.
De Coragem se fez o dia
logo que amanheceu
e a Luz venceu o breu -
e, se no Mundo acontece,
que há quem da bravura se esquece,
diz-lhe que não há
melhor penhor
que trocar medo por amor.
De nada adianta ter pressa.
Depressa
não se vai além
do corre corre das gentes -
e indiferentes ficaremos,
neste Mundo, e sem esperança
de sermos a mudança.
Fugiu da multidão
e foi para aquele deserto
onde de si estava mais perto -
porque só no puro Silêncio
podia ouvir
Aquela pura voz
que está bem dentro de nós.
Escrevo a Palavra
na entrelinha
e fica mais apertado o sentido -
a Palavra não respira como num verso solto
e definha
na entrelinha.
Reimagino o primeiro passo,
antes da manhã
desperta,
e não sei se foi em vão
o despertar -
antes fosse planta num vaso
esperando pelo ocaso.
Chamo-lhes garças,
a estas aves
fugitivas
que atravessam o meu Céu -
o Céu de acreditar
que vale a pena Sonhar.
Talvez, muito longe, um dia,
possa no Mundo
haver aquela Alegria
de estar
tão perto do Mar
que seremos rochedos
sem medos
na imóvel quietação
de termos só Coração.
Acalma a Alma,
nenhuma Dor tem o mal intemporal -
e se a leve brisa
é agora uma nortada
deixa-a ventar,
o vento há de acabar.
À tua beira, a Paz medra sempre,
não há o ser diferente,
porque abraças toda a gente -
então, por que razão
tu, ó plena de glória,
no mundo não cantas vitória?
Naveguei apenas num mesmo Mar,
apenas lugar
de Mim -
e parece que pelo Mundo
eu corri
de braços abertos
pelos caminhos incertos.
A avó tinha o contorno suave
de quem viveu
e sofreu
as dores do mundo verdadeiro -
este
que é mais do que nós
quando não temos uma voz.
Atrás ficou a Palavra imperfeita,
a que nunca
até hoje desvendei -
e nos caminhos por onde ando
no vocabulário eu procuro
vocábulo novo e puro
que arremede na perfeição
a Palavra Coração.
Tudo esquece - até o calor -,
e agora que há esta fresquidão
penso para Mim
como é sábia a sazonalidade
e também
a provecta idade.
Cantava um ribeiro
aqui à porta
e era um sopro de vida em Mim -
tempo foi,
e, na eternidade do que é,
vazou o ribeiro,
e calou-se,
e eu querendo que o ontem hoje fosse.
em memória de Luís Represas
Com vagar, com vagar,
canta devagar
agora que encontraste o Destino dos homens
e o seres de alma engrandecida
aquilo que foste em vida.
Diz-me o anjo ao ouvido
o segredo
da brisa que no meu rosto toca -
tátil, não a posso agarrar,
mas a sei
como sei do pensamento,
quando é mais leve num momento.
Estrela a estrela
no papel
nenhuma igual
cada uma diferente
como acontece entre a gente.
Vem à tardinha uma Consciência
de Mim
agradecida
pela romagem
pela sina
e pela estalagem.
Aqui, onde a água e a argila
são o magma da força,
escuto
o pulsar do vento
nas velas do moinho de Quixote,
e é a mesma sorte:
combato a ilusão
no centro do Coração.