Qualquer ângulo da minha vida
me entristece
esquina na qual a infância se perdeu
Longe do Céu
indiferente
à Dor da gente
- mas oiço crianças nas traseiras da casa
a serem Felizes por um instante
e, então, desses seres eu sou amante.
Digressão Poética
Qualquer ângulo da minha vida
me entristece
esquina na qual a infância se perdeu
Longe do Céu
indiferente
à Dor da gente
- mas oiço crianças nas traseiras da casa
a serem Felizes por um instante
e, então, desses seres eu sou amante.
Não posso inventar o Poema.
Ele nasce quando consola
e afugenta
a meia-luz da mágoa;
e, depois, sozinho,
ei-lo que forja um caminho.
A viagem é longa
e o tempo é pequeno
tão pequeno que cabe na minha mão
a madrugada que é quase nada
o Lugar de Mim,
quando o sono chega ao fim.
Grande é a Noite
e a dor
e a flor que vi
na jarra morreu
ou foi no jardim
mais próximo do Céu?
Tudo o que vivi
foram momentos de graça
por onde a Vida passa
ao de leve
parecendo que o tempo
é tão breve.
Chego de uma viagem em Mim
e parece-me estonteante
cada degrau que tenho por diante
e que eu subo
sem glória
nem réstia de vitória.
A colheita no ramo
é a safra
de fé
e de pureza
que existe na Natureza.
Tudo é quimera
na vida,
e até a bela adormecida
dormiu o sono dos justos
para depois acordar,
afinal,
sem o destino celestial.
Apenas aqui,
neste centro sem fim,
infinitamente se consente
a memória
de um maio maduro
passado presente e futuro.
Medito por fora
ponho as mãos em oração
mas cá dentro, no Coração, é tão árido
o meu sentir,
que até parece um rio que não pode vir.
Não digas ao Tempo que se detenha
nessa berma da vida,
mas clama alto chama
por esta outra hora vivida
num presente,
pois é tudo o que ao homem se consente.
Choveu
uma chuva do Céu
mas depois o Sol fez a sua conquista
e a chuva não mais foi vista.
Agora estou
num tanger de Alma
e tudo em redor eu tateio
para sentir a Paz
de cada objeto concreto
soar em Mim
num som que não tem fim.
Dantes debruçava-me sobre o Mar
e, numa alegria,
eu via
as caravelas do primeiro dia
que partiam afora
sem desgraça,
mas o tempo passa
e, agora, sem me debruçar,
nada vejo, ó Mar.
Em volta da janela, há uma hera
muito verde
que meu olhar espanta
e nesse refrigério da cor
imagino um santo num andor.
Era um rio caudaloso,
que rodeava
fráguas,
e memórias fragmentos de histórias,
mas o rio aventurou-se no mar,
e tão de mansinho
foi
que foi um só em dois.
Olhei de viés a paisagem noturna,
como quem não sabe
que na lonjura
há uma presença perfeita,
e o que vi, afinal,
com o meu olhar desigual,
foi um luar abissal.
Passou a hora do Coração sentir
que é o momento
de partir
deste cais onde miam gatas
e o peixe apodrece
e tudo, e tudo, esquece.
Mas os lírios bravos,
sortilégio
profundo de Paz,
perguntam-me, «Aonde estás?».
Ser Paz,
pequena esperança,
quando o infortúnio é ser
um Coração a arder.
Podia ser um Rosário de contas,
mas era uma caixa
com corda
e se se rodava
a música resplandecia
numa Oração sadia.
Que Céu!, é a primavera a chegar
como um assomo
de Azul
e tão distante de Mim
a mocidade
tão distante a primavera
num tempo em que eu antes era.