O paquete lá vai,
faz o seu Caminho por entre as vagas
e de ilha em ilha de continente em continente
a Coragem que vence o pavor
molda o Ser
nesse mesmo ardor.
Digressão Poética
O paquete lá vai,
faz o seu Caminho por entre as vagas
e de ilha em ilha de continente em continente
a Coragem que vence o pavor
molda o Ser
nesse mesmo ardor.
Era uma Rosa a abrir
e floriu
como se houvesse uma primavera
no instante de florir
e sem pensar
no inverno a adensar.
Por entre os edifícios, há uma nesga
de Cor.
É o verde das árvores,
agora despidas,
que eu respiro
em profundas golfadas de vir a ser
num outro tempo num outro viver
e tudo é verde no meu querer.
Pouco importam a chuva a neve
o lugar vazio,
se, no Silêncio da Noite, ó Clara imensidade,
tu derramas, no meu espírito, a Verdade.
Agora que anoitece deixo da alvorada
o segredo do dia
e limpo os recantos da Alma
devagar
para poder Amar.
Atravessa a distância
essa ínfima razão
que está bem no centro do coração -
e logo esquece
que pensar
traz a mágoa
aos olhos rasos de água.
Fazes da vastidão das searas
o teu Silêncio,
e a minha chávena com café esfria
até não apetecer bebê-lo,
mas bebo. Sorvo esta negra bebida
como quem sorve
a sua negra
vida.
Colho cada página,
como quem colhe aquela Flor
e o seu fragor incensa uma mão lisa -
e na calma limpa de tempestade
a Flor mira a eternidade
divina
na Luz que a ilumina.
Lá está, a Beleza de um dia de chuva
é mergulharmos os sentidos
todos
na tátil humidade que conserva
o alimento da Alma
no exterior de Si
pensando que o dentro é ali.
Nada faço: apenas creio.
E suporta-me a vaidade de crer
para Além da escuta
da Palavra,
como se pudesse viver
alegremente
por inteiro
num Sonho verdadeiro.
Cai a neve no meu Coração
e é uma brandura
sossegada
de como que se finaliza uma jornada -
cai a neve no meu Coração
mas é quente o peito na minha mão.
Numa escuta sem razão,
o pensador
interrompe a travessia do Mundo
para colher
do campo a flor do trigo
e ter nela
o seu abrigo.
Em pleno voo,
a ave
vem habitar o mistério de todos os dias -
chuva ou sol
cadência do vento ou da brisa suave -
mistério de haver
uma Consciência em cada Ser.
Chegas, na manhã limpa de nevoeiro,
e trazes
mais luz à claridade do dia -
assim te imagino
desde que o tempo é eterno
e os deuses rarefeitos
são modelos perfeitos.
A paciência que é feita de tempo
perdura no consolo
da raiz
do desespero -
longa linha que entorpece
e que nunca, ou quase nunca, se desvanece.
Do horizonte que respira a luz
do casario longínquo
não me perco em pensamento -
mas das folhas do meu quintal
vem a ideia
e a ideia e a ideia
e disso se arma uma teia.
Com as aves eu percorri o Caminho
límpido e puro
e sem idade
que leva ao bom porto da Liberdade.
A tarde esfria e impiedosa
desassossega até a minha Paz
torvelinho disperso
na Dor
que é a ausência de Ti, Senhor.
Todos os dias,
desde há uma eternidade,
por ti passo, ó Lisboa,
como se numa cidade me perdesse
e procurasse
o cais
daqueles que são mortais.
Acendo a luz
num compasso de espera
antes da Noite;
e sei que o Mundo é maior do que os meus sonhos
e sei que o Mundo me visita por vezes,
fugitivamente,
como num segredo,
e parece-me que caminho demasiado cedo.
Dita-me, muito devagar,
essas letras do verbo Amar,
e, depois, de as dizeres
tão naturalmente como quem as sente
deixa que seja quase contente
esta vida no presente.