Das capelas imperfeitas
não te direi
a oração,
não -
antes num lanço de pedrinhas
soltas
oro e não demoro,
o que no Coração decoro.
Digressão Poética
Das capelas imperfeitas
não te direi
a oração,
não -
antes num lanço de pedrinhas
soltas
oro e não demoro,
o que no Coração decoro.
Descasquei o fruto,
a laranja,
e dela, cada gomo, me parece
jorrar uma límpida e harmoniosa
luz madura
que eu sorvo em sinestesia
nesta manhã fria.
Ágil, o silêncio
constrói o pensamento
e deixa-o a vaguear pela casa que eu sou
abrigo
em Mim -
e vagueia sem nunca acabar
de me abismar.
Tudo verde.
Vejo tudo verde
por dentro de Mim
e por fora
onde a realidade mora
e onde o aceno da eternidade
é apenas uma Saudade.
Parece simples correr o caderno
à procura
daquela ideia perfeita
que não existe
e eu o sei,
mas ainda assim a procurei.
Cada árvore, cada erva, cada pedra
me mostra o sagrado
que basta
ou a colina ou o mar ou o céu
ou o vento e a chuva
ou o sol
permanecendo em Mim
fora e dentro
como palavra e pensamento.
Se o teu pensamento é uma Rosa,
cinge-te com essa grinalda
e sê Rei do reino teu,
mesmo que tombem exércitos em batalha,
não queiras perder a tua coroa
pois a trombeta do tempo logo soa.
Tudo o que da terra cresce
se há de colher
também assim nesta medida
da vida
um verso nascido
e sentido
pode ser colhido.
Fecharam com estrondo uma porta no prédio
e eu medito o silêncio anterior
como se o sagrado estivesse
à minha beira
na hora derradeira.
Mesmo lá fora, uma folha
cai e desanda
e parece que se enrola
de banda em banda -
e eu vendo este torvelinho
penso que afinal
mesmo lá fora
a angústia é igual.
Ali o Mar,
tão Longe do Mundo
que tenho de escrever num verso
as setas do Caminho
para conhecer
a ida e o regresso
aqui deste recanto do universo.
Abre uma janela para a Noite
e escuta a brisa
na voz
e lembra-te que nascemos e morremos sós.
Um momento perdido
não torna a ser alguma vez mais vivido
e se passa o tempo quando passa
é maior a desgraça
se o choramos no desespero
de não ser o amanhã
o nosso talismã.
Singram essas naus nesses mares
no meu Sonho
e a terra fica mais longe que o pensamento -
e por um momento
há um Longe cá dentro.
Olá, outono,
vieste, como sempre vieste,
recordar que o verão tem de acabar
e como tudo na vida
na esfera conhecida tem um fim
lembra-te de Mim
que sou una
também
neste eterno vai-vem.
em memória de Jorge Palma
São os ramos das árvores menos verdes agora
e nem o brilho que é cristal
me faz esquecer
a luz nua da alvorada
nesta tarde em que frágil
pulsa a Palavra
"Liberdade"
nuns ramos sem idade.
Não deixes que termine setembro,
sem que uma Luz
conduza os teus passos
e tu vivas a grandeza da vida merecida.
Canta, porque antes de ti,
colheram outros a imensidão do tempo,
e fizeram da sua vida Poema.
Acorda, não te deixes adormecer.
Vive a Verdade do teu Ser.
Mais silenciosa, a mente adormece
e até parece que esquece
a tribulação do Mundo:
profundíssimo pesar
que é grito
a toda a hora
de uma dor que não se vai embora.
O azul que só tenho neste verso
é uma aguarela de amor
azul na cor
excessivo na dor -
e ao azul
eu estou sujeito
qual verso sempre imperfeito.
Os ramos altos das árvores
pensam ter chegado
ao Céu
e no meu Sonho a sonhar
chegarão
tão perto do Coração
que é o mesmo que dizer
que há um Céu dentro do nosso Ser.
A minha Alma
repousa,
numa terra sem pousio -
é um lugar de sombra
e de vazio -
e, no Mundo a girar,
repousa repousa repousa
minha Alma que não ousa.