Tudo é quimera
na vida,
e até a bela adormecida
dormiu o sono dos justos
para depois acordar,
afinal,
sem o destino celestial.
Digressão Poética
Tudo é quimera
na vida,
e até a bela adormecida
dormiu o sono dos justos
para depois acordar,
afinal,
sem o destino celestial.
Apenas aqui,
neste centro sem fim,
infinitamente se consente
a memória
de um maio maduro
passado presente e futuro.
Medito por fora
ponho as mãos em oração
mas cá dentro, no Coração, é tão árido
o meu sentir,
que até parece um rio que não pode vir.
Não digas ao Tempo que se detenha
nessa berma da vida,
mas clama alto chama
por esta outra hora vivida
num presente,
pois é tudo o que ao homem se consente.
Choveu
uma chuva do Céu
mas depois o Sol fez a sua conquista
e a chuva não mais foi vista.
Agora estou
num tanger de Alma
e tudo em redor eu tateio
para sentir a Paz
de cada objeto concreto
soar em Mim
num som que não tem fim.
Dantes debruçava-me sobre o Mar
e, numa alegria,
eu via
as caravelas do primeiro dia
que partiam afora
sem desgraça,
mas o tempo passa
e, agora, sem me debruçar,
nada vejo, ó Mar.
Em volta da janela, há uma hera
muito verde
que meu olhar espanta
e nesse refrigério da cor
imagino um santo num andor.
Era um rio caudaloso,
que rodeava
fráguas,
e memórias fragmentos de histórias,
mas o rio aventurou-se no mar,
e tão de mansinho
foi
que foi um só em dois.
Olhei de viés a paisagem noturna,
como quem não sabe
que na lonjura
há uma presença perfeita,
e o que vi, afinal,
com o meu olhar desigual,
foi um luar abissal.
Passou a hora do Coração sentir
que é o momento
de partir
deste cais onde miam gatas
e o peixe apodrece
e tudo, e tudo, esquece.
Mas os lírios bravos,
sortilégio
profundo de Paz,
perguntam-me, «Aonde estás?».
Ser Paz,
pequena esperança,
quando o infortúnio é ser
um Coração a arder.
Podia ser um Rosário de contas,
mas era uma caixa
com corda
e se se rodava
a música resplandecia
numa Oração sadia.
Que Céu!, é a primavera a chegar
como um assomo
de Azul
e tão distante de Mim
a mocidade
tão distante a primavera
num tempo em que eu antes era.
Sê o que deves ser
e, sem dares por isso,
o Mundo, bolha de sabão,
ressuscita
em ti
como esperança bendita.
Tanto de sossego,
tanto de Paz,
aonde quer que o Caminho vá,
confio
que não é o fim,
pois a Luz está dentro de Mim.
Tédio sem cor,
réstia de sépia ardente,
que devora
esta Dor que não se vai embora.
Talvez um pouco de Céu bastasse
em cada pranto
para se ver um rosto sorrir
e como um espelho que revela a graça
nele uma Alma se entrelaça.
Volto uma e outra vez
àquela madrugada consentida
e sei que ainda voltarei
quando estiver sumida a vida,
pois cravos são Amores
vermelhos como as Flores.
Entre a folha e a raiz,
corre a seiva,
também assim no Mundo
corre o pensamento profundo
daqueles que amam
a Paz
e o Sonho que a faz.
Tiro da gaveta do tesouro o papel de ouro,
nele gravei a estilete
a maravilha de cada dia
sol claridade
e um pensamento que arde
procurando a Verdade.