Aqui ao pé, as árvores são abençoadas
de tanto as olharmos e as vermos
a renascer
num súbito acontecer.
Digressão Poética
Aqui ao pé, as árvores são abençoadas
de tanto as olharmos e as vermos
a renascer
num súbito acontecer.
Quero a lucidez que arrepia
a pele
quando chove
e o meu corpo molhado
desperta
para uma Verdade consciente
que existe apenas
no presente.
Quem pudera regressar
a esse tempo sem par
em que com um Coração puro
também eu ressuscitava,
sem saber, ó Gesù,
que todos temos uma cruz.
Marco na agenda a data do regresso
à realidade -
é um instante numa tarde
que basta,
quando a fantasia se gasta.
Nem todos os dias são dias de sol
e há escuridão
mesmo num regaço sagrado
do Céu abençoado
e do mundo, que dizer?,
tanta violência sempre a acontecer.
A ver o Mar e o rio que desagua na foz
sinto
uma largueza no Coração
e até a multidão
perfilada na amurada
parece livre e descuidada.
Abro a janela de par em par
e é assim que o verso se inicia
e o dia começa
sem pressa -
enquanto o meu olhar pela praça se estende
e vendo as gentes o meu Coração aprende.
À cadência de um e um instante
me vejo
nesta cercadura da Cidade
e sinto
aquela angústia amarga
de tempo perdido
por não o ter instante a instante vivido.
Apagado, como se apaga
um pecado,
meu canto perdido me desassossega
agora,
e parece ser a hora
que, agora, meu Coração chora.
A pérola
e o pescador
como no fio do pensamento
o gesto
são o sublime par
de Amar.
Voltei.
E vejo agora que tudo permanece igual.
É esta a eternidade
que eu anseio encontrar
num lugar
em Mim
para dizer: «Sou enfim».
No tempo de ser Criança,
o Longe
no horizonte
tinha a mais bela fonte
e dela jorrava a límpida água
que num gole saciava -
perdeu-se o Longe (secou a fonte)
onde estás, meu horizonte?
Os que saem de casa
ainda na noite
dia a dia mortificam -
e até as crianças, meu deus,
nesta labuta
da vida
são gente crescida.
Temperano, como no tempo
da minha mocidade,
o dia
tem mais verdade
quando passa
agora
e eu não sei a hora.
Quero jóias e pedras de ónix
a debruarem
a linha do cimo da encosta -
e o que escondem
os deuses passando devagar
é a riqueza deste Lugar.
Algures, no Mundo,
um bombardeio
fere
a manhã por inteiro;
e sou eu feliz?,
na terra
onde não há guerra?
Voltei de Mim
e trouxe da viagem
um ramo florido
de um tempo ainda não nascido -
e por sem razão
não sei dizer
como pôde acontecer.
A musa é uma varina
e um cauteleiro também
é um canto
que nos ensina
a viver aqui e para Além.
Dia e Noite que se renovam
numa harmonia
perfeita
e crescerá a Luz
e será maior o Dia
no tempo vindouro
és tu, Criança, meu ouro.
em memória do meu Pai
Foste raiz de uma outra raiz
e o Céu
porque quis
levou-te a seres Feliz.
Em folhas de papel te escrevo,
ó Poeta,
que das mil faces descobertas
foste único
e real
neste Portugal.