O que estou a sentir?, tão perto
de Mim,
que minha Alma se veste assim
de flores e de frutos
maduros -
e vive
confiadamente
no eterno presente.
Digressão Poética
O que estou a sentir?, tão perto
de Mim,
que minha Alma se veste assim
de flores e de frutos
maduros -
e vive
confiadamente
no eterno presente.
Por todo o lado, madruga a aurora
quando, fora na noite,
os deuses agitam o pensamento
no Sonho por dentro
e quem sonha
confia
que já nasceu o dia.
O meu lugar no Mundo
é breve
como uma brisa leve
que a lisura da areia desfaz
num ziguezague corrido
e que dá à vida o sentido.
Parece que é agora o tempo
da colheita -
vindimo então na vida
cada cacho
e será um vinho novo o que acho.
Passagem ligeira da brisa estelar
pelo meu corpo
despido
e a sombra estende-se
como pálpebra que se semicerra
nesta terra.
Olho o Céu límpido
e puro
e penso na Ave primeira
a que com a minha paz
sem demora
a cada hora
parece que também chora.
Mole e argilosa,
nas mãos do Oleiro,
minha vida é um molde passageiro
que estremece na roda
como árvore na poda.
A tarde é maior do que o tempo
que há
para viver o dia -
e alguém se lembra de Ti,
ó avó,
com a Palavra do recomeço
e com um Amor
que eu estremeço.
Antes da Palavra,
a epígrafe
define tudo aquilo que entardece
na vida
e no ocaso do poema
se vê
o que ninguém lê.
Semeia e viaja,
e verás
no campo florir
como um mistério
o teu sentir.
As pedras rasgando o solo
vincam a raiz
que sustenta o tronco da árvore,
e parece que entre a pedra e a raiz
está o que deus quis.
De Coragem se fez o dia
logo que amanheceu
e a Luz venceu o breu -
e, se no Mundo acontece,
que há quem da bravura se esquece,
diz-lhe que não há
melhor penhor
que trocar medo por amor.
De nada adianta ter pressa.
Depressa
não se vai além
do corre corre das gentes -
e indiferentes ficaremos,
neste Mundo, e sem esperança
de sermos a mudança.
Fugiu da multidão
e foi para aquele deserto
onde de si estava mais perto -
porque só no puro Silêncio
podia ouvir
Aquela pura voz
que está bem dentro de nós.
Escrevo a Palavra
na entrelinha
e fica mais apertado o sentido -
a Palavra não respira como num verso solto
e definha
na entrelinha.
Reimagino o primeiro passo,
antes da manhã
desperta,
e não sei se foi em vão
o despertar -
antes fosse planta num vaso
esperando pelo ocaso.
Chamo-lhes garças,
a estas aves
fugitivas
que atravessam o meu Céu -
o Céu de acreditar
que vale a pena Sonhar.
Talvez, muito longe, um dia,
possa no Mundo
haver aquela Alegria
de estar
tão perto do Mar
que seremos rochedos
sem medos
na imóvel quietação
de termos só Coração.
Acalma a Alma,
nenhuma Dor tem o mal intemporal -
e se a leve brisa
é agora uma nortada
deixa-a ventar,
o vento há de acabar.
À tua beira, a Paz medra sempre,
não há o ser diferente,
porque abraças toda a gente -
então, por que razão
tu, ó plena de glória,
no mundo não cantas vitória?
Naveguei apenas num mesmo Mar,
apenas lugar
de Mim -
e parece que pelo Mundo
eu corri
de braços abertos
pelos caminhos incertos.