O rosto do dia
está emoldurado neste verso
e sorri
para Mim
agora que a tarde chega ao fim.
O rosto do dia
está emoldurado neste verso
e sorri
para Mim
agora que a tarde chega ao fim.
As louças e os talheres da moda
as mobilias e os sofás
e tudo o que numa casa jaz
são como
o enxerto e a poda
neste pensamento nudo
perfeito
na minha mente
que habita só no presente.
Choveu.
Hoje clareia.
E cada momento em que estou
(de tristeza e de alegria)
faz-me sentir que a cada dia
eu espero
por uma água virginal
que não seja tão desigual.
Um corropio de aves segue o ribeiro,
ora acima, ora abaixo,
ora esvoaçando alto no Céu;
e eu sem ver
estas aves do meu Ser.
O aeroplano segue a rota no céu
e deixa um rasto branco
atrás de si -
também um livro segue uma rota
e o que de si brota
é o que importa.
Um fio de silêncio sai do saibro
ou da espada
no ato de contender -
e, nas alturas, o Ser,
sem lutar,
escuta só o seu vibrar.
Na guerra, na terra, no mar, no ar,
no profundo,
não há senhores do Mundo.
Não, não é nova esta ferida,
está na terra
e se escancara
- não é estranha, mas é rara.
Rasguei as epopeias
e todos os versos inquinados
que vindos do passado
mourejavam
na penumbra das noites -
e, agora?,
quando chegar a hora,
apenas minha Alma Te adora.
Peregrina
sem devoção
vou em busca de uma oração
grata
como quem agradece
ter apenas uma prece.
Entretenho-me a medir o tempo
crescente minguante lua nova lua cheia
e neste algoritmo da medida
assim
se esvai a minha vida.
Acendo a luz do candeeiro,
que está em cima
da mesa,
e deixo-me atravessar,
devagar,
pelo brilho incandescente da lâmpada,
até que chegue o luar
branco
e frio,
e o meu corpo vazio sinta o arrepio.
Num instante, a terra reluz -
é a roseira
no roseiral na terra do meu quintal.
E com as minhas mãos
eu planto na terra
obreira
a Rosa primeira.
em memória de A.L.A.
Quando me cantavas
aquela Canção
e era a tua voz mais forte
que o tempo,
parece que não havia morte
e era tudo
um vento Norte.
Há mil dias
que as manhãs são frias
e o inverno interminável
não morre
antes de colher toda a Dor
e antes de nascer a primeira Flor.
É lento o tempo da memória
mais lento ainda
quando o dia finda
e a penumbra parece que vai
tolher o alento
que guarda o pensamento.
Antes de me dizeres
que é o tempo do anoitecer,
embala-me
e faz-me uma trança
nessa vide de esperança
que foi plantada de mansinho
na beira do meu Caminho.
Do alto da colina
corre
um cortejo de estrelas
e eu imagino uma orquestra
no meio
da floresta
cuja música se eleva a incensar
todo o firme instante que há de acabar.
O instante que passa
não volta
por isso habito um tempo revoltado
contra tudo
que é só sonhado.
É nas entrelinhas que eu quero escrever
toda a força do meu viver
e se escrevo
eu noto bem que cada Palavra
me leva
para Além.
Atravessa esta paisagem
o voo
translúcido e sereno das aves fugitivas
que no lugar do Sonho
são o movimento
breve
de todo o pensamento mais leve.
O ruído, a chama, a revolta
tumulto
aqui à porta
é breve imagem
da humana passagem
- que também Ulisses a guerra recusou -
mas o destino obra a memória
de haver num outro ser um mesmo viver.
Dispo o casaco,
mas tenho
frio -
enrolo-me num cobertor,
mas sinto
calor -
penso num verso e se desfaz a Poesia
- triste a Alma vazia.
Que é feito do movimento do Mar?,
tão dúctil
a espraiar-se na areia
e que leva para o mais fundo
todo o mal do mundo.
Ao Longe, o casario brilha ao sol da tarde
e eu penso que em Mim arde
uma vontade
de correr pela encosta acima
para encontrar uma rima.
O meu sorriso preferido
é o Teu
que é um instante de Luz
e atravessa a floresta
onde uma árvore empresta
o verde o tempo da cor
a Ti, meu Amor.
Lá onde mora o esquecimento
é que eu quero estar -
imóvel Flor
que fita no horizonte
o seu esplendor.
Branca
Imaginação,
tu que corres a cada passo
num enleio que eu Abraço,
vem
e traz a Liberdade
à Ideia que em Mim arde.
A primeira pessoa,
nós
que somos pó e do pó nos aproximamos
tomamos as oliveiras dos ramos
e partimos
como quem busca
encontrar
uma terra firme noutro lugar.
para o Viriato
no dia do seu Aniversário
O ser que respira em nós
(através de nós)
espreita o nosso pensamento
e brinca num espírito
veloz
com a nossa ideia de que estamos sós.
Não há Poesia
por mais simples que seja
que não se entorne nas margens dum regato
sonhando o Mar
com a cor do seu pensar.
para o Tiago
no dia do seu Aniversário
Constante, a paisagem do dia
é um Jardim
límpido
e tão claro
que só nele apetece estar
antes da eternidade chegar.
Creio, ó deuses, que a brisa
quando passa
abre o Caminho às aves silenciosas
que voando e adejando
levemente
vivem sempre no presente.
Também as vozes alheias
se parecem
com o Silêncio
que acredito
nos conduz ao Infinito.
Sempre suave,
soa
o mistério
dentro do pensamento
- a ideia de onde vem?,
em Mim, penso, mas estou Além.
O desvio no Caminho não tem importância,
pois a gente que encontro
reluz
e é assim que reparo
como um dia de sol é raro.
Passeias no quintal
e é inverno
passeias num passeio eterno
que se demora
antes de se acabar
a começar
e contigo nada podes levar.
Toda a Poesia nasce duma bruma
ligeira,
que turva o olhar a começar;
e é nevoento o pensamento
e é brumosa a ideia,
que só brota límpida, clara,
quando se escava uma terra rara.
É maior que o campo e as avenidas
este corre que corre
sem medida
é a Vida -
o mistério de ser
e de morrer.
Acalma, vento,
não me varras por dentro
que o pensamento quer harmonia
e o sinal da chuva,
nesta manhã tão fria,
é o cinzento
da cor,
moléstia de uma dor.
Quando a lassidão nos prega ao chão,
e não há uma memória
que cortezmente nos leve para a frente,
singrar
é um momento sem par,
é erguer-se a píncaros rochosos
e aí construir
universos novos.
Não confundo,
neste cabo profundo,
o gentil Amor com a ilusão -
porque em Mim
tenho o alento
de que é a Beleza o alimento.
O paquete lá vai,
faz o seu Caminho por entre as vagas
e de ilha em ilha de continente em continente
a Coragem que vence o pavor
molda o Ser
nesse mesmo ardor.
Era uma Rosa a abrir
e floriu
como se houvesse uma primavera
no instante de florir
e sem pensar
no inverno a adensar.
Por entre os edifícios, há uma nesga
de Cor.
É o verde das árvores,
agora despidas,
que eu respiro
em profundas golfadas de vir a ser
num outro tempo num outro viver
e tudo é verde no meu querer.
Pouco importam a chuva a neve
o lugar vazio,
se, no Silêncio da Noite, ó Clara imensidade,
tu derramas, no meu espírito, a Verdade.
Agora que anoitece deixo da alvorada
o segredo do dia
e limpo os recantos da Alma
devagar
para poder Amar.
Atravessa a distância
essa ínfima razão
que está bem no centro do coração -
e logo esquece
que pensar
traz a mágoa
aos olhos rasos de água.
Fazes da vastidão das searas
o teu Silêncio,
e a minha chávena com café esfria
até não apetecer bebê-lo,
mas bebo. Sorvo esta negra bebida
como quem sorve
a sua negra
vida.
Colho cada página,
como quem colhe aquela Flor
e o seu fragor incensa uma mão lisa -
e na calma limpa de tempestade
a Flor mira a eternidade
divina
na Luz que a ilumina.
Lá está, a Beleza de um dia de chuva
é mergulharmos os sentidos
todos
na tátil humidade que conserva
o alimento da Alma
no exterior de Si
pensando que o dentro é ali.
Nada faço: apenas creio.
E suporta-me a vaidade de crer
para Além da escuta
da Palavra,
como se pudesse viver
alegremente
por inteiro
num Sonho verdadeiro.
Cai a neve no meu Coração
e é uma brandura
sossegada
de como que se finaliza uma jornada -
cai a neve no meu Coração
mas é quente o peito na minha mão.
Numa escuta sem razão,
o pensador
interrompe a travessia do Mundo
para colher
do campo a flor do trigo
e ter nela
o seu abrigo.
Em pleno voo,
a ave
vem habitar o mistério de todos os dias -
chuva ou sol
cadência do vento ou da brisa suave -
mistério de haver
uma Consciência em cada Ser.
Chegas, na manhã limpa de nevoeiro,
e trazes
mais luz à claridade do dia -
assim te imagino
desde que o tempo é eterno
e os deuses rarefeitos
são modelos perfeitos.
A paciência que é feita de tempo
perdura no consolo
da raiz
do desespero -
longa linha que entorpece
e que nunca, ou quase nunca, se desvanece.
Do horizonte que respira a luz
do casario longínquo
não me perco em pensamento -
mas das folhas do meu quintal
vem a ideia
e a ideia e a ideia
e disso se arma uma teia.
Com as aves eu percorri o Caminho
límpido e puro
e sem idade
que leva ao bom porto da Liberdade.
A tarde esfria e impiedosa
desassossega até a minha Paz
torvelinho disperso
na Dor
que é a ausência de Ti, Senhor.
Todos os dias,
desde há uma eternidade,
por ti passo, ó Lisboa,
como se numa cidade me perdesse
e procurasse
o cais
daqueles que são mortais.
Acendo a luz
num compasso de espera
antes da Noite;
e sei que o Mundo é maior do que os meus sonhos
e sei que o Mundo me visita por vezes,
fugitivamente,
como num segredo,
e parece-me que caminho demasiado cedo.
Dita-me, muito devagar,
essas letras do verbo Amar,
e, depois, de as dizeres
tão naturalmente como quem as sente
deixa que seja quase contente
esta vida no presente.
Volto ali.
Regresso sem regressar,
pois o presente é estar
onde um homem puder ser
livre
e de toda a corrente
resgatado eternamente.
Da lembrança da chuva
se faz este verso
de janeiro -
choveu, água correu,
e meu Coração não estremeceu.
Extenso é o mapa daquilo que vejo
na hora, agora longínqua,
do amanhecer -
primeira maré do dia
- que o meu olhar vigia,
procurando, nesse relento do mundo,
o sinal
de ser a Paz o cardinal.
Melancólica,
na tarde cinzenta,
obrigo-me a sorrir -
gentileza que a Mim faço
e a que obedeço:
é sorrindo que me reconheço.
É sempre assim
uma ternura,
que no Longe perdura,
e que vem, como uma onda do mar,
libertar o teu olhar
dos milénios da dor,
pois tu és só Amor.
Estranha condição
de chorar,
no ocaso da Luz;
quando nasce um verso
e nada em Mim é disperso.
Movimento a movimento,
a ave vai buscar
a parede do seu lar;
assim também eu vou construindo
esta casa de versos
lar que me dá o abrigo
como o Abraço dum amigo.
Desmancha o horizonte sagrado
e vê do infinito a Luz,
porque só lá fora
podes encontrar
do verso a medida
e do homem a guarida.
Quem sabe dos caminhos andados?,
da sombra e do pecado,
daqueles que vieram por fim
(e eles são para Mim
o homem completo e inteiro
que busca - e encontra - o caminho verdadeiro).
Sei de um jardim
que só existe na lembrança
de um tempo de à roda brincar nesse lugar
e porque brincava era feliz talvez,
como era feliz também,
sempre feliz,
com a vida que deus quis.
A brancura das nuvens
que eu vejo e que passam
tem no Céu a sua graça
farrapos de névoa ou de nevoeiro
em que eu vejo o meu corpo inteiro.
Sempre em pé, árvore
agora despida,
aguarda que este inverno da vida
seja um florescer
do mistério do teu Ser.
A chávena de café e a colher pequena
parecem ser realidade,
mas e o lusco-fusco da tarde?,
a sombra sem idade,
e a Dor que em Mim arde?,
ínfimo de ser irreal,
tudo afinal
é igual.
Mestre, ó Mestre,
dos Sonhos límpidos que aquietam,
recomeça ao meu lado
e vamos debruar o tecido da vida
a oiro e prata e diamante
a cada instante.