quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Logo à noite


à tardinha, relerei todas as páginas de história e tratados,

reis, rainhas, príncipes, guerreiros e conquistadores, e também,

navegadores, pela sorte bafejados.


Não lerei histórias de versos,

nem poesias fantásticas, pois aí

o guerreiro chora,

e há deuses a lembrar que na demora

também há mágoa, tristeza e Dor.


Lerei só tratados de ciência,

exatos, atómicos, gramaticais,

e abandonarei todos livros onde a vida dos homens,

ó, oh!, Dickens,

é sem razão dura e obstinada

como se se corresse apenas uma longa, longa, estrada.






quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ditirambo


O sábio uso da língua e a propriedade vocabular

devem ser exigidos a todos quantos têm o papel oficial

de falar em público a toda uma nação. Quando um governante

quer qualificar o seu povo, deve conhecer-lhe a história

e a psicologia e deve, também, saber usar a língua.

Senão incorre na construção de um mero drama

em que as personae olham para si mesmas

como se fossem marionetadas.

Surge a presente reflexão a propósito da palavra piegas

usada pelo primeiro ministro do meu país

incitando as gentes; a ele respondo na minha

voz timbrada: já Hércules não somos.







terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Esfinge


Esfíngica interrogação dos tempos,

que caminho nos É dado?

E a silhueta de mulher pairando no vazio

responde só com o silêncio mais frio.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Folhetim


Exquisite magazin

é a vida a cada dia, quando oiço a telefonia

e sei do Mundo os estranhos eventos.


Mortes, massacres, e uma dívida que sobe,

pobres e mais pobres, miséria,

fome e desgraça.

É isto um Destino de raça?,

ou o caminhar de cada dia?.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Dias a dias


É inverno, é domingo.

Há morangos para a sobremesa.


E, do baú das lembranças, surge-me a primavera

bela a acenar-me pela janela.



sábado, 4 de fevereiro de 2012

Lisboa à noite


tem uma magia diferente,

sem a luz do quase entardecer,

move-se apenas na cor das gentes.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Se a Aurora...


Tão de alvorecer,

se vê o dia a nascer: e tão que nasce

perfeitamente é possível todo o impossível.


Mas, neste acordar

da Terra, o sonho tão breve

se encerra, pois que no percurso do dia

repete cada um só uma manhã vazia.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Phantasia


Sem a criação no gesto,

nada no Homem é completo.


Por isso, a ausência de fantasia

mergulha a alma numa estrada fria.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O oleiro


Escorrem, no barro, as mãos do oleiro

e, gira que gira, o barro mole

ganha uma forma

oca.


Também os pensamentos

giram na minha mente,

mas a mão que os molda

é, tantas vezes, cega e dolente.


Por isso, aquela peça que olho e vejo,

vidrada, com um brilho raro,

me lembra o oleiro

que pensa

que pensa com as suas mãos.



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sombra raríssima


sombra. Penumbra que desce ao entardecer

e que, nos veios da noite, se agiganta como se

num alguidar, pousado, o pão levedasse.

Por isso, nestes dias, tão de sol,

a luz clara 

sonhou um janeiro

sem durezas de inverno -

máxima estranheza

da verdadeira Natureza.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Alvoroço


pelo Mundo, alvoroço.

Talvez que, neste entardecer,

de gente, ao frio, a gemer, soem

ao longe, e tão perto, os tambores.


Mirífica, a paisagem e o sol escondem os clamores.


domingo, 29 de janeiro de 2012

Cantata


Ontem, à noite, mergulhei na Alfama

do fado e dos fadistas - retiro silencioso

de que, na penumbra, ecoam as vozes e as guitarras.

Ao fundo o rio, que serpenteia em direção

ao Mundo, tão perto a Sé

e o Aljube.

E, tão raro e fugaz,

recordo o tempo em que vivi

ali, naquela mesma rua, há um quarto

de século; sem fado,

na altura, o que vibrava em mim

era uma cantata

feliz  de uma antiga Lisboa.


Hoje, povoa o meu pensamento esse estranho

momento em que habitei em Lisboa,

sem ter ouvido o fado-canção

rente ao Coração.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Sonho em prata


Sonho da realidade em prata.

Transcorro meio século, e sei dos veios da luz

sempre, desde sempre,

gotejando e escorrendo,

gota a gota, fio a fio,

no écran onde estou escrevendo.


Por isso, a nuvem ligeira, passageira no Céu,

me ilumina: em prata, hoje, tal é a sina.





sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Estrela guia


Este poderia, e pode até, ser o nome de um espaço

dedicado a um movimento zen de natureza transpessoal;

mas, antes, prefiro imaginar

que seja o nome de um astro perdido no Céu:

estrela que guia,

sonho que é meu.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Borboletar


Na cadência dos dias, cada coisa

encontra um poiso certo: a chávena, o copo, o prato

arrumados nas prateleiras. Do mesmo modo,

cada mulher e homem.

Por isso, um desvio na estrada alcatroada

da borboleta discreta

implica uma contradança:

cada Ser tem um só caminho de esperança.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Gramática


Boa, velha, gramática, aquela que aprendi

na Escola Primária... depois disso, a fragmentação

tem sido tanta!, que de nada adianta.


Saber ler e escrever? Saber taxionomizar?

Naufrago, o poema espera

não pelo Ser do sentido,

mas pelo bisturi

da dissecação: janeiro - nome comum,

contável ou não.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tempo de futuro é o Tempo


Quando logo, à tardinha, mergulhar nas palavras do G.,

saberei do futuro o Tempo.

Então, as horas e os minutos, que virão, serão

como os astros do Céu, no seu movimento previsível,

um Dragão, que devora em chamas

cada instante presente que jamais É

de tão atómico, de tão frágil!

Assim, resta-me o Tempo futuro que é o Tempo.

O Tempo dos morangos e das melancias,

e das uvas vermelhas bravias, que, num pic-nic

de primavera, saborearei,

simples quimera,

como se a Vida não fosse senão uma espera.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Carta de marear


escrevo-te uma carta, ó mar!,

tão breve, frio, distante,

que, se pudesse navegar, não sei se sempre partiria.

Onde me levaria o teu jornear,

que searas alcançaria?, se ao outro lado, ó mar!,

eu chegasse, quem me traria?

E os rochedos, ó mar!, que forças escondidas hão,

a vencer os medos

daquele maior segredo,

o mostrengo, teu senhor?

Por isso, ó mar!, me despeço, sem cruzar

ondas nem sal, nem maresia,

e até sempre, sem regresso,

de joelhos, te peço,

sê até sempre a Via.






domingo, 22 de janeiro de 2012

Andamentos


Allegro andante... talvez.

Sim, talvez tenha sido esse o compasso

que escutei e que maravilhou aquele meu dia numa sinfonia.


Mas, depois, escureceu. A noite desceu

e a música ficou perdida. Que aconchego na vida!,

ter uma pauta em branco, em branco

para escrever

cada melodia querida.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Gelidamente


Gelidamente, mas ao Sol, o corpo ganha ânsias

de um desconforto suave no recorte frio do mês de janeiro.

Parece que as árvores despidas configuram

uma natureza triste,

como se o passado tivesse sido roubado

a todos quantos, no presente, alçam os olhos para um futuro,

tão vazio, que sem narrativa ulterior,

trouxesse, apenas, pelo ar, raras sementinhas,

nascidas no gesto carregado deste amanhã sem ontem.

Então, gelidamente, mas ao Sol, germinam

as sementes que serão

só e apenas

flor e fruto de Estação.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Ano novo


começa em janeiro, quando o luar é mais

prazenteiro... alguém mo disse assim um dia,

em janeiro a lua acresce o dia.