sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Persistência




É mais forte a razão,

quando, num esforço, se repete

como Sísifo

o trabalho de mourejar

sem desfalecer nem praguejar.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Vertigem




Ter o tempo todo para mim

e tocar

a fímbria do eterno

pela tarde dentro

enquanto oiço o vento gélido

sob um céu sedento

chamar-me momento a momento.



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Descrição de um lugar




O meu quintal lembra a meninice

e é uma planície

mais verde que o verde

saído da paleta dum poeta-pintor.


Por isso, quando me sento aí e descanso,

oiço o correr de um ribeiro manso

como quem esquece

que há um novo dia que amanhece.




segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Passageira




é sempre a Dor,

que, se não se quebra na vida,

se dissolve quando chega a morte.



domingo, 15 de dezembro de 2013

Clamor




Árvores despidas

da roupagem do outono,

que aguardais pela renovação

do tempo,

dai-me um alento

na minha humana condição

que não voltará a ter um novo verão.





sábado, 14 de dezembro de 2013

Passaporte




Nas imaginárias folhas de vinhático,

escrevo o teu ardente nome

para que, no além das fronteiras,

sejas, apenas, um viajante mais,

que cruzou o Oceano.










sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Vigília




Na espera, vigio cada sonho

para evitar que o voo

da verticalidade no espaço

me soerga

do anoitecer.

Antes prefiro ficar numa imobilidade chã

como se o cerro da noite fosse uma clara manhã.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

De sombra




Eram inteiras as grades

do passado,

pátria minha!...

que acorrentavam

ao teu chão os penitentes...

Mas no hoje em que todos partem

ingloriamente

mergulhas só na sombra tristemente.



E nas grades levantadas

não há vitórias consagradas.







quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Silêncio




Na morada dos que partem

fica vazia a casa

aguardando, apenas,

pelo fim do fim:

a desintegração da memória.

E, quando atingir todo o universo,

e não houver começo,

de trevas só

será feito o silêncio.




segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Ainda o outono




Nos pátios do edifício,

o restolhar das folhas acastanhadas

relembra uma lição de vida

aquela que diz

que é o início da hora da partida.


Por isso, tão grato me é este tempo outonal

em que brilhantes ao sol

se despem os plátanos centenários

prontos para o cenário da invernia

de força corrente e bravia.





sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Fogo-fátuo




É de lume este chão

que ergue

a multidão -

mas tão calada e insuspeita

esta força

apenas se sujeita

ao jugo do poder

como se estivesse a apodrecer.




quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Um gesto




Há laços que nos unem

como se fôssemos a vime

de um feixe

tão apertado

que não possa ser desatado.


E, assim, se passa a tormenta

da existência,

fragmento da outra essência.



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Vórtice




Cais!, dos que nunca partiram

para aquele Longe

da unidade profunda do mundo,

sê minha morada

que celebra

apenas o Adeus

àqueles navegantes

que vivem vidas errantes.



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sementeira de sonhos




Tem cem anos o edifício

que me acolheu há metade de uma década.

Ruinoso, mas digno,

ergue-se na Praça do jardim

como o grande Lyceo.

E será verdade?, Deus meu,

que há uma alma

pungente

que aí vive eternamente...

Talvez, sim, se semeiem os sonhos

naquela juventude imortal

que, ano a ano, se cruza no umbral.








domingo, 17 de novembro de 2013

Silêncio na tarde




Quase noite, quase o entardecer

mudo dos dias,

quimeras perdidas!,

no sonho suspenso de tantas vidas.



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Diálogo a uma voz




Se o sino do campanário tocasse,

anunciaria, logo pela manhã,

que o dia, que se abre como uma flor,

carece sempre de um toque de amor.



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Singularidade




É, no meio da multidão,

que se destaca o teu rosto singular;

mendigo que vejo ao passar

na Praça, em Lisboa,

como gente liberta

dos grilhões

daqueles que fazem os milhões

para os Senhores.


Por isso, só, e no meio de tanta gente,

brilha um rosto diferente.









terça-feira, 5 de novembro de 2013

Manhã clara




Acordo, pela madrugada,

quando ainda há noite pela janela

e, no interior da casa,

o silêncio

lembra o sonho que abandonei

tão cedo

em troca de uma aurora sem medo.





segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sob os plátanos




Sob os meus plátanos,

vivo em espanto

por ver

tanta gente que cresceu.


E, a cada ano que passa,

julgo eu, no meu pensamento,

que a infância não é

senão que um raríssimo momento

em que o ser está mais sedento.






sábado, 2 de novembro de 2013

Dessintonia




Do cimo desta colina levantada

no movimento milenar

das coisas da terra,

procurei-Te,

em vão.

E só, inteiramente só, e sem pranto,

carreguei, como a um manto,

aquelas dores da gente humana

seja cristã, judaica ou muçulmana.













sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Horas vãs




Monotonamente corre cada dia

e a certa alegria

da obra realizada

não é senão mais uma hora mal amada.