quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Um gesto




Naquela ânsia de procurar

apenas por um gesto

aguardava

desde tão pequenina

que ficou para sempre

imóvel perdida numa esquina





terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Fragmentação




Anseio pelo inverno

frio saído da escuridão

nebulosa do desassossego

que existe no interior de cada ser

como quem suspeita que cada fragmento

do tempo é eterna memória

do homem e da sua história





segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Talvez seja só cansaço




Talvez seja só cansaço

um cansaço sem frio

e sem compaixão

por ninguém

um cansaço que adormece

e acorda comigo

como se fosse uma espécie de abrigo



domingo, 14 de dezembro de 2014

Rio de palavras




Era um rio de palavras

uma torrente esperançosa e quente

essa que se soltava

quando entre a gente

eu vivia como se o viver

fosse um eternamente



sábado, 13 de dezembro de 2014

Regresso




Regresso

sem ter partido nem chegado

aonde as fontes jamais secam

e aonde as gentes permanecem

iguais embora o tempo não volte mais



domingo, 7 de dezembro de 2014

Veleiro




Talvez seja breve

este instante de revolta

agora que não existe senão o caminho

do mar

e tão claro e límpido

no céu sereno

o meu pensamento é um pássaro

que voa

de terra em terra

descobrindo na humana miséria

a essência do porvir

e de existir



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Alvorecer




É de vento este caminho

em que cada passo

é tão titubiante

como o futuro distante




sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Momento




Qual madrugada

rompendo na alma

é de sossego o meu permanecer

neste mundo e neste viver



domingo, 16 de novembro de 2014

Límpida Tarde




Não desejaria um outro horizonte

nem um outro céu

pois nada é mais perfeito

na natureza

do que esta Azul beleza

à deriva

como procurando Deus


 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Recomeçar




Mesmo que seja turvo

o presente,

não desesperes

e recomeça,

porque, por cada vez que

se inicia,

nasce uma rosa

como por magia.


 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O Canavial


Tradução de The Reed Bed de Dermot Healy,
poema gentilmente cedido, na sua versão inglesa,
 por Matt Waterson

É assim com os canaviais, diariamente

eu passo por eles,

mas, no instante em que me afasto

e o sussurro pára

algures atrás de mim,

por entre as árvores flutuantes,

eles deixam de existir.

E, então, eu começo

a divagar sobre o que é que eu perdi.

Que coisa era aquela -

essa coisa importante -

que eu deixei para trás de mim,

na estrada dos sonhos?


E, então, chega o momento,

quando regresso a casa,

de voltar, por acaso, pelo seu caminho;

e lá estão eles,

os familiares que eu perdi na manhã,

agora firmes, ao lado das árvores escuras

que assinalam o limite do canavial,

um agitado campo de canaviais âmbar,

qual tufo de penas, frágil, convocando-me.


E é quando eles verdadeiramente existem,

quando te aproximas,

no último momento,

e o olhar subitamente se apercebe deles,

cabeceando no seu leito de canela,

aprontando-se, numa agitação sussurrada,

por estarem de novo aqui.


 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Recolhimento




As portas vão-se fechando,

em redor dos pátios,

e o silêncio cá fora

na manhã

lembra o silêncio

dos grandes mosteiros

em oração.


Apenas falta a água

numa fonte correndo:

murmúrio de cada hora fenecendo.




 

domingo, 19 de outubro de 2014

O rosário das horas




Que madrugada é esta?,

que emerge da noite escura,

sem piedade nem ternura.


Que madrugada é esta?,

sem demónio nem deus

nem inferno nem céus.


Que madrugada é esta?,

Caminheiro, diz-me,

se é um rosário de horas,

que eu desfio, quando tu,

devendo, não choras.







sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Destino




Como um rebanho espalhado 

pela encosta, eu sinto

aquela paz e quietude

de quem não tem senão na Fortuna

a sina de ser

uma luz do entardecer.



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A raiz




Nunca é tarde.

Pois até mesmo na morte,

no olvido mais profundo,

permanecerá

a tua natureza no mundo.





segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O dia que chove




Passou a tempestade,

e, agora, o dia clareou de verdade,

como esquecendo

que até o universo vai morrendo.


E haverá talvez o dia em que nem chove

nem clareia e nem haverá uma nova ideia.





sábado, 11 de outubro de 2014

Strange restlesness


Tradução de Matt Waterson

Morning dawns beneath the trees of my yard,

paler, and more leisurely now.

But inside of me is a lament that cries out

for this no longer being the first day,

when I gathered in -

with my soul aflame -

that first hope one feels,

at the commencing of a new path.



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Agora... e para sempre...




Agarro-me, firmemente,

a todas as coisas que têm em si mesmas

uma marca de imutabilidade...

Preciso de um pouco de eternidade

na minha efémera vida

para que esta ânsia

não seja desmedida!




segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A lição




É o mestre, o Tempo,

que ensina

que a certa Felicidade

nasce em cada momento de verdade

como quem caminha,

na maré vazia,

por sobre as algas

e os rochedos

vencendo todos os medos.



domingo, 5 de outubro de 2014

Outonal




A paisagem da janela é sempre igual.

As estações sucedem-se,

mas a colina mantém

a sua imagem de paisagem despida,

inerte, face ao movimento do tempo.


Tanto olho que acredito

que também

no coração dos homens

há uma dureza igual

e que é derradeira: final.



sábado, 4 de outubro de 2014

Entre o silêncio e uma porta




Amo, afinal, o silêncio.

Mesmo o silêncio mais duro

e frio, dos dias que escorrem

para o esquecimento.

Amo o silêncio sem lamento,

como, se das sombras

de qualquer momento,

não emergisse senão a paz.


Por isso, se baterem, não abrirei a porta,

deixarei, qual coisa morta,

o silêncio ser o meu amor sem fim.