Brilha o sol neste pensamento de esperança,
se do tempo em rigor eu sei,
que justa é a lei.
Brilha o sol neste pensamento de esperança,
se do tempo em rigor eu sei,
que justa é a lei.
Quem dera fosse primavera
e um sopro desse além
aqui estivesse à espera
como se esperasse por alguém.
Escorre pelas páginas do livro
o negro dos caracteres
e nesse charco de negritude
é que o Poeta adivinha
a Dor que é tua e minha.
Entre um e outro pensamento,
há um espaço
que teima em não pensar
e, sem memória,
aí vivo infinitamente em glória.
Sentado sobre o rochedo, procuro
na linha do horizonte
um vislumbre do amanhã
navio que do outro lado do mundo partiu
e que, a chegar, ainda ninguém viu.
A eternidade passa e o que fica
é este instante imorredoiro
também no sono à noite há oiro
por um momento experimentas a morte
e acordas mais forte.
O canto do pássaro atravessa as paredes deste quarto,
onde só o sonho habita,
e o meu olhar esse canto fita.
Não acaba o dia sem que a neblina
se cole à vidraça
e baça
não deixe florescer
o pôr do sol no meu ser.
Que festa é esta,
que o meu espírito sente e fita,
agora que cada bocado de um caderno desconjuntado
rima e verseja
sem que Hipocrene o veja.
Sopro de cristal sobre a encosta,
e gélido e frio
o ar
dos desencontros nas mesas dos cafés
onde há um instante
puro e singular
na quietação dum verão
eu te confiei a minha mão.
Serão mil os sóis no universo galáctico,
que infinitamente luzem,
mas o meu Sol, nesta minha fronteira,
tem a Beleza primeira.
E assim é também com tudo o que está perto de nós
que nos lembra que não estamos sós.
Da ave, branca e pura,
que habita o Coração de Mim,
te direi - que onde está agora não sei.
A pequena casa branca para sempre perdida
é um sinal da própria vida,
que esquece, quando entardece,
o tempo do amanhecer,
assim também no nosso ser.
Entre o não ser e o ser,
há uma avenida de áleas floridas que se abre
num único momento
que nasce dentro.
O tanger dos sinos e o tempo a passar
remotamente,
roçam este instante
como se uma multidão numa estrada
caminhasse para nada.
Percorro a praia sem fim
que há no interior de Mim,
e até parece que sem nunca acabar
é neste areal que eu vou sempre estar.
É mágico o clarão na noite,
quando se desdobra a lua no chão do quarto,
e eu penso flutuar
como navio nas ondas do mar profundo
que navega para um outro mundo.
Um verso é uma âncora no chão deste mar
onde encontro os corais e as medusas
e onde habitam as musas
que são como as gentes, alegres e descontentes,
alegres e tristes,
e que no tempo ao passar
só nelas tu, poema, existes.
Quando busquei uma fonte,
foi no cume do horizonte que achei de beber
uma água pura e cristalina
e, no instante de agora, não tardarei em voltar
a esse cume na encosta
a esse tanto de que a minha alma gosta.
Leio no movimento dos ramos das árvores
pelo vento batidas
que é sempre incerta a hora
se o sol se vai embora
Há sulcos na terra ressequida
que lembram que por ali já um regato correu
também assim a memória,
terra ondulante,
conserva o que é distante.