Regresso como quem viajou
até àquela praia
na outra margem do mundo
sabendo e sendo uma ave vivendo
Regresso como quem viajou
até àquela praia
na outra margem do mundo
sabendo e sendo uma ave vivendo
De mãos dadas, corremos o mundo
e é bela a descoberta
vozes cores
e a flor da Paz
numa miragem fugaz.
Neste bosque de faias, não há senão o outono
que me desperta deste sono,
quando as folhas inquietas das árvores mais esguias
tombam ao vento nas tardes frias.
Como argonauta que regressa à pátria
assim eu regresso
do amplo universo
e atravesso a planície infinda da memória
e é essa a minha vitória
Qual é o nome deste pássaro
que da minha janela
eu vejo
e que também de voar me dá desejo
Que te leve o silêncio,
na hora em que pensando passas
de uma margem para outra margem na vida -
e nesse silêncio tu terás a quietação verdadeira
e a hora será a primeira.
Parei de mirar a chuva
e retomei
a leitura deste livro fatal
que é a vida
e que não tem igual.
É agora que a hora se demora
num capricho
de borboleta inquieta
que volteia e torna a voltear
em redor de uma luz
tempo, que instante a instante, seduz.
Descubro a passada do Caminhante,
na terra lisa e negra do asfalto
e entonteço
pois cada recomeço é um sobressalto
e a cidade cresce para o alto.
Trago da infância a memória breve
de um rio, ou talvez,
de um ribeiro,
que eu sentado vejo a correr
como quem olha para o seu próprio ser.
A colheita não é perdida.
E dessa bruma de espanto que esconde
o meu Coração,
Tu virás em esplendor
a seres o Salvador.
É uma pedra e eu digo pedra,
mas, se houver um sol
agigantado na vidraça,
eu digo alegria
ainda que a manhã esteja fria.
Ao arrepio do pensamento
no lado de dentro
é que minha Alma amanhece
e tudo esquece
até o pranto
de quem não tem um manto.
É preciso abrir as janelas da casa,
quando o vento
empurra a chuva para cá
e, neste chão molhado, reflete-se a minha lágrima
no rosto escorrendo
por esse Sonho que pudera ser
o Mundo em paz viver.
Às vezes, na escuridão de um dia,
uma luz nascida do pensamento
doira o momento.
Regresso à paisagem da encosta,
uma e outra vez, sempre,
sem cansaço,
e me espanto que este laço perdure,
como se, em milénios de uma existência,
aqui, sempre aqui,
nasci e morri.
Aonde, no teu Coração, é o lugar
do silêncio mais profundo
o Silêncio
de uma prece
que ao homem esquece.
Ouve o canto e a história,
contada pela memória
de um mestre
que os ventos amansou
e que disse «eu sou o que sou».
Chega o sono
como chega a Mim
o aroma das flores no jardim
e, nesta pacificação da noite aqui,
parece que já tudo vivi.
Adentro-me no nevoeiro
como quem procura um caminho desconhecido
para ele me levar
a um lugar à beira do Mar.
Não dances que dançar cansa
nem rias
nem te alegres
que um dia a tristeza vem
do mais fundo de um Além.