terça-feira, 10 de abril de 2012

Partir


ou ficar? assim num único lugar

que fosse, ao mesmo tempo, ausência e presença.


Seria como ser rei e mendigo

senhor com dons

e sem abrigo.


Mas malbaratada a sorte

e o que com ela vem

fico

ou parto? diz-me alguém?



segunda-feira, 9 de abril de 2012

Trajeto


A tinta da china

desenho um mapa-mundi

com o relevo das montanhas mais altas -


da minha janela

exploro o caminho pela serra para o palácio -


........................................

E embora tudo não passe de um sonho,

imagino o trajeto

mais próximo ao Céu,

onde, tal como Prometeu,

roubaria o fogo a um deus.



domingo, 8 de abril de 2012

Páscoa


Sol e Aleluia

cantados nos entretrechos

de uma sonata

lânguida e argentina.

Música que não ouvi, sol que não senti.

Mas é um tempo de renovação

e o tango-canção

povoa minha alma nem eu sei por quê:


talvez aguarde

pela quaresma futura,

aquela que redima

generais e exploradores 

como desgraçados senhores.



sábado, 7 de abril de 2012

O olvido


é minha razão e alimento,

é meu movimento -

estranhamente acontece

e volta não volta

bato de novo na mesma porta -


então como espiral

de fumo sempre tudo se desfaz.


Mas gira que gira,

volta que volta,

onde está aquela porta?




 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Altas veredas


verdes campos de desassossego,

sempre a Verdade e a Mudança tão longe

e tão perto no interior talvez vazio de cada um.



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Instante


Tão somente

o instante passa...


E a estrada tão perto de mim

que desconhecia

leva-me

ao centro

de cada instante mal-amado

que hoje é passado.




terça-feira, 3 de abril de 2012

Esperança


A Esperança dorme...

Talvez por isso nenhuma voz se levanta

a cantar um hino heroico de amanhecer.


E hoje o silêncio é tamanho

que nem se ouvem os pássaros;

até parece que lá longe dormem também,

como se o dormir fosse o refúgio

letárgico

de quem não tem um ramo de árvore para poisar.



segunda-feira, 2 de abril de 2012

Registo


Nossa Senhora e o Menino - registo simples

que adorna a Sul o quarto. E quando a casa se enche

de luz, o amarelo vivo do contorno, debruado a fita dourada,

parece enaltecer o dia em cada marcha de jornada.


Agora, aqui,

apetece-me despir a casa

de objetos e de adornos, talvez me inspire

nas prateleiras despidas e nos farrapos dos livros

e me sente, enfim, a escrever

como se um registo estivesse a fazer

ao sol quente de abril

a Sul no meu jardim.


 

domingo, 1 de abril de 2012

Deslumbramentos


Quase sem dar por isso, a manhã passou,

passou a tarde, também, anoiteceu, e, finalmente,

um novo dia nasceu.


E tudo acontece tão vagarosamente

que é quase como fosse sempre o mesmo dia,

a mesma manhã, a mesma tarde. É como se os deuses

no Olimpo tecessem um véu transparente

que, a meus olhos, imobilizasse o Tempo.



Meio século é meu,

mas não deixa de me fascinar

quem, prestes a fazer cem anos,

se ergue e se deita numa cadência estival:

nascer ou morrer - tudo é igual.



sábado, 31 de março de 2012

A arte de viver


Um dia, uma pedra singela

quebrou, furou, o vidro de uma janela.

Num chão alcatifado tombou.

Depois, sem como não, sem o saber,

afundou num lago em ricochete

e na areia do fundo assentou. Veio a rede,

de novo a levou e para estranha estrada,

então, voou.
 

Talvez, sempre inteira, seja uma pedra esquecida,

daquelas tantas que há na vida,

mas encontro na sua história,

embora singela,

a memória que é sempre bela.





sexta-feira, 30 de março de 2012

Lá longe o Sul


representado no canteiro das flores campestres

faz-me acreditar que mesmo nas maiores das adversidades

de uma planta - a falta de água e uma terra barrenta -

é possível florescer e crescer.


Por isso, minha alma exalta numa rara harmonia,

imaginando-se uma flor, uma flor bravia.


terça-feira, 27 de março de 2012

Iniciar marcha


para o Sul.

Mais cor e luz. Mais silêncio.

Acreditar.

Apenas acreditar.



segunda-feira, 26 de março de 2012

Lentamente


muito lentamente o Universo se move

no delongo dos anos que são tão eternos assim

como em câmara lenta o movimento dos dedos

a apanhar uma migalha de côdea do chão.


E tão insignificante quanto ela

é afinal do ser humano a Vida,

que às vezes de tão aparentemente perdida

se movimenta ao ritmo letárgico do cosmos.


E, se penso, há nisto quase uma dança

inteligente, mas dolente,

que conduz o homem à mudança

no devir da longa, longa, Vida,

qual tão eterna

como lentamente alguém espreitar à janela.


domingo, 25 de março de 2012

Bruá


A arte de fazer e servir o chá da cultura oriental

é a arte da vivência do tempo

como algo inestimável e que não se repete:

o rio jamais corre ao contrário.


Por isso, neste bruá que é a vida ocidental dos nossos dias

cada vez mais me espanta que o silêncio

não seja senão incómodo

e tristeza.



quinta-feira, 22 de março de 2012

Desvio


Há uma estrada.

Há um caminho e uma bifurcação.

Há uma vereda.

.....................................

Mas, nisto tudo, há também um nó,

que não se desata, um nó que malbarata

toda a escolha feita pó.



quarta-feira, 21 de março de 2012

Filigrama


Como fazer uma trama? Fio a fio,

pacientemente, ordenar no máximo rigor.

Depois, criativamente buscar, no labor, aquela

inspiração da Musa que desperta

mais que certa

personagem e desiderato.


Então se crê, que o que se lê,

fluiu apenas de um sopro,

sem martelo, nem dúvida, nem escopo.


terça-feira, 20 de março de 2012

Sagração da Primavera


Do parque Eduardo VII para o mundo,

assim acolheu Lisboa, musicando, a sagração

da primavera.

Mesmo sem flores de jacarandá na correnteza dos passeios,

percorri a larga avenida,

imaginando ouvir a sinfonia

lá mais longe

como se um pedaço de luz

entrasse pelas vidraças dos edifícios

e dissolvesse

o tanto de inverno em cada alma humana.




segunda-feira, 19 de março de 2012

Rebeldia


A criança construiu uma vedação em torno

de si e esperou pela manhã do dia seguinte para

desvendar o mistério. Era um mote sério. Barricada

e indomada, saberia, então, decorrido o silêncio da noite,

quem haveria de vir-a-ser.


Mas o dia não nasceu - e toda toda a vida

ingloriamente esperou

como se, quando um galo cantasse,

na verdade de si mergulhasse.





domingo, 18 de março de 2012

Cochiço


Num sussurro, adivinho

qual dos deuses no crepúsculo

tece a minha estrada de vida.


Parece uma teia esquecida.


O pesponto dos fios tão bem urdido,

imóvel, tão imóvel,

sem movimento,

de vida para vida,

revela que,

sem compaixão,

há um deus da solidão.



sábado, 17 de março de 2012

Profundamente


Será do cinzento do céu?

Será desta nuvem tão fechada?

Espanto do silêncio à volta,

que guarda uma revolta já morta.


Mas, sugerem-me agora que rompa as teias

do medo e que,

aceitando o que for,

viva cada dia com Amor...


Será só cinzento o Céu?

Será esta nuvem perfeita?



sexta-feira, 16 de março de 2012

Marear


Ao sol do poente, toda a inquietação

se esquece quando anoitece.

E as naus

perdidas para sempre

navegam tão só nessa cerração da noite,

quando, no meu Sonho,

tudo está tão certo e ajustado

que nada pode ser quebrado.