Olho o Céu: e lembra-me ter olhado
quando nascida a minha vida
para o tempo novo,
aí,
nu e brilhante,
encontrei o Caminho para diante.
Olho o Céu: e lembra-me ter olhado
quando nascida a minha vida
para o tempo novo,
aí,
nu e brilhante,
encontrei o Caminho para diante.
Uma ave a esvoaçar
no meu beiral veio pousar
e trouxe por um instante uma alegria
se nada mais havia
nesta tarde fria.
Se o pensamento se desnortear,
condu-lo docemente
até à esquina
onde um verso encontra a rima
e verás a salvação
chegar
sem precisares de chorar.
Criamos com as próprias mãos
uma boneca de trapo,
um medicamento novo,
uma estação espacial,
nada é acidental, por isso estranho
que não haja vontade
de alcançar a eternidade.
Que Caminho maravilhoso vejo e sigo,
quando cada passo que dou
tem a bravura do que sou -
e Poeta, na roda da engrenagem da vida,
que é da Dor?,
se cada verso é da ledice um penhor.
Leva-me a ver as árvores perdidas,
está nelas toda a vida
que nesse olhar eu quero ter
- pudera eu nunca esmorecer,
nem em lágrimas gritar
que ao mundo não quero voltar.
O tanger do sino
clama por Ti Menino,
e pelo mistério que és,
doce Criança,
arcano da Esperança,
enigma nunca desvendado,
vem, e caminha ao nosso lado.
Procura em ti
o princípio e o fim
desta bela Noite de espera
e vive, de Coração puro,
todo o momento real
que sem ti é imaginal.
Every day levas a Luz contigo.
E porto de abrigo
farol que guia
em ti há a magia
que o Verbo anuncia.
Cá dentro, a memória
folheia o caderno da vida
e vê em cada despedida a certeza
de que corre para o Mar
toda a fonte
sem outro horizonte.
Bênção desta tarde de inverno.
Primeiro momento
da escuridão
na casca dourada do tempo
antes da Luz
branca e pura e nua
da lua.
Perdeu-se do Natal
quem
no Coração não tem
um rio correndo a toda a hora
por sobre pedras
e rochedos
e indo para Além dos medos.
Sê Silêncio, na Hora fugitiva,
e eu te prometo
que da Loucura regressarás
a seres Poeta
sem te perderes
nas ruas do labirinto
que também eu sinto.
Às vezes, é precisa toda uma vida
para enfim regressar,
e a casa?, permanece, esperando por nós,
nua e branca, nesse aconchego de lar,
para podermos recomeçar.
Este é o sinal: a névoa da manhã
envolve o meu cabelo
Azul
relâmpago do firmamento
que acorda todo o meu pensamento.
Ó grande Flor do império por vir,
que lembrança
é esta mesma esperança,
de um tempo que se soa que vindo será
em que toda a pessoa
se libertará.
E se agora
é noite escura,
é porque a espera é dura.
Rasgado em Mim
o Coração,
como uma cartolina vermelha,
rota e amachucada,
sem servir para nada,
observo e sinto,
que é dura esta pena
de já não ser muito pequena.
A árvore despida
parece já sem vida e sem alento
mas ver a árvore por dentro
é ver a seiva que lhe corre nas veias
e perceber
que é um outono que está a acontecer.
Na penumbra, o candeeiro dá a luz possível
ao redor,
e eu vejo apenas as arestas da mesa
nesse lusco-fusco do entardecer.
Quem dera o sol,
sem neblina,
para dar conta do recado
de não mais te ter a meu lado.
Haverá a força do vento
em cada folha
que agora é tempo e terra
tombada no chão
à espera da podridão?
Talvez,
cada folha cai só uma vez.
O primeiro imperativo da alma
é o Amor,
sem sombra, e como uma Flor
que floresce,
em cada degrau da eternidade,
e ama a Liberdade.
Amparo-me ao corrimão das escadas,
numa subida até ao 5.º andar:
podia subir mais alto,
como se escalasse uma montanha,
e do cimo dela eu visse
o Mundo inteiro,
mas, mais alto do que o prédio e a montanha,
está o Céu e eu, sem glória,
não chego a essa vitória.
Choveu. E cá dentro
de Mim
brilhou um sol sem fim,
porque correu a água por sobre a tristeza,
e lavou e levou
para tão Longe no Mar
o pretérito do verbo Amar.
Mesmo antes de respirares pela primeira vez,
já eras a Mãe de todos nós,
perfeita na Graça,
de cada homem que passa.
O abismo do Céu é mais raro,
mas, se nele tropeço
como numa pura inquietação,
pesam as horas de remanso leve
e a vontade falece adormecida -
oh, angústia da vida.
É de terra esse chão
por que anseio,
trilho na planura pura -
estrada para adiante de Mim
cada vez mais perto
do fim.
Agora e aqui
é de Paz este momento
tão vizinho a Mim,
que me parece descrença
a guerra e a fome
que ao redor o mundo consome.
Ó Noite, na ínfima distância
do claro Céu,
me vejo perdida,
é breu na minha vida;
e tão perto a estrela do amanhecer
sem a poder ter.
Dos ramos altos
daquela
árvore nua,
sonho a verdade e a lua.
E como sem ver de quê,
porque o Caminho
é estreito,
não colho fruto nem me deleito
e tudo guardo no peito.
Há palavras que desaguam em dezembro
e constroem o Poema
do Presépio
- um burro e uma manjedoura
e, nas palhinhas deitado,
um Menino
que recebe o recado do Destino.
Tudo repousa no meu olhar.
Que vejo eu?,
do alto da minha altura
que não seja
uma triste lonjura
e que dura só porque dura.