segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Névoa


no cinzento sem luz.

Muralha de encontro ao Céu.

E cá dentro de mim

um marulhar de onda cresce

como um breve adeus

ao Tempo

do passar lento

do que já foi, do que já aconteceu.


Baú de lembranças é esta vida,

tão que chega o vislumbre do entardecer,

como uma agenda aonde assento

dia a dia

cada momento

do passar lento deste viver.








sábado, 29 de dezembro de 2012

Sombra


Como uma sombra a tristeza

acompanha na vida

quem não conhece o assombro da partida

nem da despedida.



sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

De tarde


Olho as dunas reconstruídas

no meu pensamento,

num areal de infinito mar

indescoberto,

e penso que escrever é como navegar

e naufragar, uma e outra vez,

infinitamente,

à cadência eterna do amor.











quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Vindima


Primeiro veio a chuva

escorrendo pelos degraus dos socalcos

até não haver senão

planície aos nossos pés;

depois chegou o vento

e alisou o chão,

movimentando os grãos de areia

com uma brisa ligeira;

finalmente vieste Tu

e com as mãos vindimaste

o que a terra inteira ofertou.









terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Natal


dia universal no Coração

de quem procura

paz,

é redenção

do Homem, primeiro criança,

fonte máxima de esperança.





segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Oferta


Um ramo de rosas Te ofereço,

viajante sem lugar, e nessa oferta tão singela

quero que vejas nela a permanência

de quem está,

no sopro da distância,

qual peregrino de fé,

de porta aberta a quem é

mensageiro do destino

e da coragem e do sonho.




domingo, 23 de dezembro de 2012

Quando


a Solidão é tão intensa

quanto as ondas gigantescas do mar,

o Ser que se move em redor

recolhe a inteireza do que é maior.


Pois ser de si para si

é desafio constante que perdura

para além do instante.




sábado, 22 de dezembro de 2012

Improvável


Como se desse em vão em algum rochedo,

o mar desenha na areia da praia

a multiplicação de si

presente no Segredo

de cada onda ardendo que se espalha;

e nesse movimento,

tão longe e tão perto de mim,

recolho em minhas mãos

o sonho ardente do Coração.


Linguagem de ondas e de mar,

sem naufragar na maré,

o que É É o que o destino É.






sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Inverno


Apesar do Infinito,

que derrama em toda a parte

gota a gota o Tempo,

hoje renasce,

tão breve, o amanhecer;

como se a cada dia,

numa repetição,

fosse eterna a Poesia

tão eterna como o Pão.




quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Inspiração


Antes que me esqueça,

no olvido do meu pensamento,

quero revisitar as fontes,

onde jorram as águas das nascentes,

e criar em cada imagem

um murmúrio tão igual e tão candente.


Ó rotas quase perdidas, dai-me

o fulgor fresco das rosas

para imortalizar cada Ideia

numa prosa sem glosas.



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Anseio


por esta claridade sem fim.

Não é a luz do sol, não; é outra coisa

qualquer que irradia dentro do Ser

sem se deter na noite

nem no escurecer.



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Ao fim da tarde


O silêncio sente-se mais densamente,

quando, ao fim da tarde,

as árvores os ramos exercitam

para, numa cadência suave,

deixarem tombar uma a uma as últimas

folhas outonais.



domingo, 16 de dezembro de 2012

Atravessar fronteiras


No ponto onde a vida subitamente

acontece nasce um equilíbrio

tão absoluto

que a compreensão e a paz

se encontram como no universo

se encontra a perfeição.




sábado, 15 de dezembro de 2012

Há dias


O dia enegreceu tanto

que a escuridão era vizinha

das almas mais desconsoladas.


Mas minha alma vibrante,

também negra, por um instante,

procurou o sol interno,

e desfeita da desdita

minha alma me incita

a iluminar onde seja inverno.



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Tudo


flui, tal que no tempo tudo passa.

Névoa distante de mim,

se o alvorecer

não for senão sempre silencioso,

traz-me de volta à lembrança

a serpentina

de cor desmaiada,

aquela que dava o brilho

do novo à jornada,

ainda que fosse a mesma sempre a mesma estrada.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Recomeçar


Em liberdade, antes que o dia amanheça,

recomeça sem qualquer pressa

a labuta da jornada.


E então verás que é um assombro

a loucura que vês

e que ao teu lado sempre cresce:

cada um na sua vez,

desafiando o tempo acrescentado,

sepulta-se na embriaguês

de mais um níquel, qual vitória do pecado.





quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Portal


Fugaz instante,

deserto estonteante de Ser,

no mais intenso frio,

uma flor a nascer.


E tão naturalmente como anoitece

a gentil madrugada floresce.




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Pensamento


Aqui é o pensamento que me diz

ser sonho tudo o que até agora vivi.

E, a cada momento que acordo,

do passado me recordo

como fantasia volante

que não pode ter durado senão um instante.




sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Soul


é a voz

melodicamente ondulando,

voz que desperta

como numa linha reta

tanta descoberta.




quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Vislumbre


De uma coragem que me incita,

o cauteleiro na rua

apregoa o prémio grande

debaixo de chuva, vento e frio.

E eu, no aconchego do lar,

vejo a cautela a passar

sem estender a mão para a agarrar.


Tomara ter a força de um gigante

e ser como uma andorinha viajante

para viver da mesma maneira

que uma sombra passageira.



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Voltar


E de súbito

desabam os dias

como se o tempo se esgotasse

de tão pleno,

no instante em que voltasse

aquela primavera interdita,

aquela que a gente acredita

ser o arremedo do paraíso;

mas tudo não é mais do que sonho vão,

dia a dia, estação a estação,

o tempo sempre corre em cada mão.




segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Afinal não há um anjo


a abençoar um mês tão frio

e aos teus pés, Lídia,

imagino a tua reminiscência daquele

outro tempo,

em que, à lareira,

escutavas o poeta

a dizer-te que o instante

é apenas um momento vibrante que atravessa

tepidamente a tua vida.


Pois que sem anjo não te irás lembrar,

corre, Lídia, para a beira do mar,

desafia o frio e o poeta,

corre, Lídia, que toda a emoção é certa.








domingo, 2 de dezembro de 2012

No outro lado


de mim, há uma madrugada

acontecida na noite mais cerrada

da vida.


E assim de braço dado com a aurora da escuridão

absolvo o meu pecado

de nunca ter amado

uma concha ou uma avezinha

como se ama uma rainha.





sábado, 1 de dezembro de 2012

Liberdade


Como uma nota vibrante,

Te procuro, neste instante,

Liberdade venturosa de séculos,

para Te dizer que hoje é a sina

a prisão desta nação,

sem que uma onda no mar

Te estremeça, viva e docemente,

Coração que a alma sente,

Coração da neblina.



quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Azul


Azul, rente à correnteza da onda

do mar, sem lugar.


Mas se me apetece navegar

por entre velhos papéis,

naufrago no Azul sem Céu,

porque o assombro é só meu...


E sem lembrança, nem desdita,

o Azul é a cor que me incita

a ver num olhar contrafeito

a eterna luz do que é imperfeito!




terça-feira, 27 de novembro de 2012

Como desenhar


uma casa?

Com uma mão em outra

mão; e um coração

batendo asas

como se um ninho

fosse uma casa.


Mas o desenho só fica completo,

se houver um sol por perto,

tão perto

que a ave no ninho

fique pousada

num canto da estrada,

junto à porta tão aberta,

que tudo seja apenas uma paisagem

desperta.








domingo, 25 de novembro de 2012

Ilusão


Será Ilusão?, ver um rosto na multidão

e acreditar

que é este o rosto da saudade

do Mar

da antemanhã

que traz a nova esperança,

a esperança em que toda a vida balança.


Será Ilusão?, não sei...









sábado, 24 de novembro de 2012

Nevoeiro


E o Rei?, onde está?,

quando, enfim, regressará?,

que hausto de hora espera?


Crença de Povo não é quimera,

mas antes profecia ajustada

à lenda

da Nação

que sonha que o heroico cavaleiro

guerreiro conduzirá à Paz

e ao assombro de Ser

uma nova Era a nascer.


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Prenúncio


A curva no caminho esconde

a estrada...

e amanhã, na madrugada,

quando o tempo for então novamente

só presente,

sonharei de novo a curva,

a curva intermitente,

de viver sempre a sonhar somente.





quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Desfio


Lentamente, como se a girar

o mundo se movesse,

encontro uma seca flor

só em botão,

que sem pétalas nem cor

se abre na minha mão.


Milagre é assim: um mundo

que gira sem fim.



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Viagem


breve ao outro lado da rua.

E sem percalços nem perturbação

vi a Lua à distância de uma mão.


Tomara, então, que tudo fosse sempre assim:

um sonho de gigante

cá mesmo tão dentro de mim!





segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Distração


Não sei como, porquê nem porque não,

mas o dia corre

em distração -

pura ilusão.


E sentada vejo navios e o mar

como se a jornada

fosse este sem caminhar

sem esperança

para buscar

os que tão jovens se perdem por aí

também sentados

mas de olhos turvados.




domingo, 18 de novembro de 2012

Há uma palavra


que me chama agora que anoiteceu

e tão estranha

parece ecoar por esses espaços

siderais,

onde não há fome nem guerra,

mas apenas o movimento do universo,

tão múltiplo e diverso.


Mas a palavra que há, distinta a ouço

a cada dia,

«Paz», onde estás?,

porque és só a utopia?





sábado, 17 de novembro de 2012

No quiosque


mede-se a distância entre as estrelas

logo a seguir à madrugada

e os jornais

tão cheios da realidade dos dias

coloram a banca

como se nunca não sucedesse nada.


Assim começa sempre o meu «bom dia»,

entre as estrelas do céu

e a crua presença na rua

de uma sina que se habitua

a estranhamente encontrar o destino

em qualquer lugar.



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

...


Quando a espera?, quando

a ilusão?, tão breve.


Que num repente a Vida

jogue os dados da partida.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Imensidão


Nos pátios, as folhas dos plátanos

invadem o espaço, parecendo que um manto

cobre o chão já centenário do velho edifício, onde

demoro as horas

da manhã,

procurando saber se as palavras,

tão leves como as folhas secas que caem,

vão ao encontro dos rostos novos.


Mas, na imensidão duma manhã infinita,

eu apenas sou Aquela que em mim habita,

tal árvore que assiste à passagem das estações

como se no Tempo

agora fosse igual a outrora.



quarta-feira, 14 de novembro de 2012

No Sul


o verde é mais verde,

pois, tanto que o olhar se estende,

tudo viceja na cor

após a abençoada chuva.


E no carreiro

onde submergem as manhãs

uma cegonha

dá as boas vindas aos homens

que procuram o aconchego de um ninho

no Caminho.



terça-feira, 13 de novembro de 2012

Campo de flores


Se fosse verdade este sol

eternamente brilhando,

no campo todas as flores

estariam alegres vibrando.


Mas se até o Imortal

conhece no tempo a chuva e o vento,

como podem as flores afinal

escapar às monções do tempo?


Por isso, e não por outra coisa qualquer,

cada flor do campo

vive a cada dia o tormento

de ver o pôr do sol a cada ínfimo momento.







segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Aurora


Quando o medo atravessa

a hora,

o sol escurece lá fora.


domingo, 11 de novembro de 2012

A infância


tão longe que já não é possível

buscá-la!

Por isso, hoje caminho somente

desbravando o imenso mar

das coisas para sempre perdidas,

sem saber porque são assim as nossas vidas.



sábado, 10 de novembro de 2012

Fragrância


suave inunda a casa

como se incensasse, em comunhão

com a cidade onde habito,

cada criança ainda não-nascida

e que procura um espaço nesta vida

para realizar em glória

a caminhada de vitória,

que é nascer e depois morrer.



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

E os deuses


onde estão?, quando envelhece

aquela alma

por não ter trabalho nem pão.


E na suma da desdita, porque não há

um deus que grite?,

fazendo escurecer o dia,

dizendo toda a verdade.


Mas não, não há deuses, onde estão

a dor e a impiedade

da mais simples humanidade.


Por isso, e não por descrença,

não rezo nem ergo a minha voz

a pedir justiça e paz

e toda a saciedade.



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

novembro


Grande é o movimento que descubro

na Vida...

E na linha que se move,

há uma história

que é tão eterna

que ainda que quiseramos despertar,

por outros mares navegar,

vestes outras vestir,

não o poderíamos fazer.


A linha corre num só fio

e não há lei para a desfazer.


Somente os deuses tecem num lugar

onde amanhecem

aqueles sós que demandam o seu destino

sem fado malogrado

e dia a dia, lá eternamente, sonham a vida da gente.




segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Haverá


quem pense uma nova utopia?,

que faça levantar

um grito de esperança.


Não sei. Mas hoje, na troca breve

de palavras, suspeitei

um conformismo e uma desistência

como se do fundo de um poço

fôssemos prisioneiros

de uma imensa mágoa


e atravessa a mágoa dentro também de mim

um nevoeiro denso que não tem fim.



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Pausa


Quando a mente

é um enredo que sufoca,

não há uma ação produtiva.


Por isso, na Natureza e no Universo,

a Inteligência é abstrata e pura,

para que sempre floresçam as folhas e os ramos

das árvores e para que no Alto

não sucumbam as estrelas.



domingo, 28 de outubro de 2012

Alpendre


Muda a hora, mudarei eu?,

como se estivesse sentada à soalheira

num alpendre imaginário

a ver passar gaivotas tão rentes

que o esforço de pensar

se diluísse em prosa

subtil.


Goteja lentamente

o tempo e nas horas esquecidas

debaixo do alpendre

a Vida

escorre por entre os dedos

sem lembrança nem esperança.






sábado, 27 de outubro de 2012

Na volta


do caminho fiquei

à espera que o dia amanhecesse

tanto, que não houvesse

nunca mais na vida

senão um alegre canto.



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A...deus


                          para o Abel


Palavra sem letra

sente o fim de jamais

te tornar a ver

nesta jornada em que a solidão

encarcera e agrilhoa

tão fortemente

que morre em vida tanta gente.


À mesa do café,

o infinito dos possíveis caminhos

traça, contudo, uma distinta e outra

caminhada - aquela, justa e perfeita,

que Coração a Coração estreita -

e, como se o passado fosse nada,

e o presente, súbito, florescesse,

caminharei, agora, tendo por lição de vida,

a tua tão solitária e silenciosa partida.






domingo, 21 de outubro de 2012

Outonal


Tristeza suave é melancolia

breve - tão breve como o decorrer

do dia - perante um Céu

inclemente,

cinzento cinza,

que toda a Dor não sente.



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O ciclo da folha da árvore


Do verde

que desponta

ao amarelo dourado

que cai,

tal a minha alma conta

a jornada por onde vai.


E sempre alegre

me incita

a Vida

na sua caminhada infinita.



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Outono


Rareiam as folhas das árvores

no meu quintal

tão longe de mim

que é um assombro esta chuva que cai

aqui, caminhando para Sul.


Quando voltar o Sol, também eu caminharei

e não sei se não vou encontrar uma árvore robusta

em cada esquina

lembrando-me a vida de menina.


 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Errante


na cidade, qual ave que se despede,

meu coração

evoca aquele tempo

- anterior a esta guerra -

em que feita de esperança, a vida

só tinha as durezas

e as alegrias do subir a uma serra.



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Andamento


O rio que não vejo da minha janela

não corre para o mar, mas antes fixa-se

na linha do horizonte a ver despertar gaivotas

tão esguias

que são os alicerces das casas.


Por isso, num desalinho como num poema

desfeito, não espreito

o rio

nem as gaivotas,

porque sei que as palavras que se soltam

navegam para além

dos boqueirões e das esquinas

tão gráceis como meninas.



domingo, 14 de outubro de 2012

Ligeiramente


O músico na calçada

anima o coração de Lisboa à noite

e, como se não houvesse senão o caminho

de morrer e estar sozinho,

cada um que passa escuta

o ritmo da batida mero sonho que é a vida.




quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Parcela


Lá onde o limoeiro está

há uma calma tão fria

que se sente o cheiro a maresia

na solidão de cada momento.


Pudera atravessar o tempo e saberia

do futuro

a breve história

em cada limão que desponta, que desponta na memória.





terça-feira, 9 de outubro de 2012

Casa na areia


Branco mar, no cinzento do Céu,

goteja na distância

tão perto

que é possível esperar-Te

na areia.



domingo, 7 de outubro de 2012

O abrir da janela


Estranho é o destino dos textos.

Passados tantos anos, alguém se recorda

de algo que foi escrito e até apagado por mim.

E eu que, de todo, esqueci...


Em cena estarão as palavras

a encontrar reflexos de oiro nas vozes

préclaras de jovens de diferentes raças

que soletrarão a ideia

nobre olvidada

por tanto tempo

que é como se tudo acabasse

de ser escrito num momento futuro,

aquele em que amanhecerão as árvores

vestidas de verde e Tu chegarás

dizendo apenas «bom dia» como se nunca

tivesses senão estado sempre presente.



sábado, 6 de outubro de 2012

Movimento


Mar para onde se escorre

toda a saudade, vem ao meu encontro

vem libertar a verdade.




sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Território


O meu espaço é a Casa

ou é o Mundo? Pérolas soltas

à espera de serem enfiadas num fio

aguardam pela minha libertação.


Toca o piano cá dentro de mim,

dizendo-me que é a hora

da verdade sem nenhum deus

ser um novo desafio.


Medo de quê? Dos degraus das alturas?

Mas a branca linha me pede

que outra coisa diferente faça

como destelhar a minha Casa

e deixar que o clarão da lua

me mostre outra vida no bréu.






quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Tinta fresca


Queria dizer-Te

em segredo, muito em silêncio,

que o meu Coração balança entre

a Esperança do entendimento

e o Desalento do fado das horas,

como se só a cada dia encontrasse a renovação

e a coragem para seguir de margem para margem.






quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Tão longe


o Sul que é a paz.

Mas o desalinho por dentro

desnorteia o intento de partir e de chegar

lá tão longe, onde a Casa aguarda na distância

pela habitante insegura.


Troco, talvez, a ida por uma chávena de café.

Por isso a memória do futuro é triste

falta-lhe, talvez, a inteireza

de uma mão cheia de certeza.






segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Ideal


Sem nome

de oculta identidade

todo o que segue caminho na estrada

encontra mais fácil o lamento.


Mas a porta está fechada.


Por isso, G., epicamente

deixa rolar a gigantesca pedra

até que na areia

possas escrever aquilo que medeia

tão fragilmente entre o real e o ideal.





domingo, 30 de setembro de 2012

Murmúrio


Tão à sombra das árvores raras

do meu quintal,

descubro a solução para a minha vida:

mudar como vitória escondida.


E assim sem oração

nem pedido

tenho o destino cumprido.




sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Aventura


nova. Pisar com cuidado todas

as pedras do caminho. O outro é eu.


Por isso a fragilidade em fuga

descoberta

em quem eu não Sou

é também minha.


Algures

tudo se assemelha a tudo.

Página idêntica.

Soletração e gaguez.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Marulho


do mar sem praia.

Areia despida das ondas.

Descomeço do fim da epopeia

da gesta marítima do tempo

que vem.

Futuro de todas as coisas

fotografado no instante presente.

Que onde? Que mar?


Naufrago é para sempre todo o instante.




terça-feira, 25 de setembro de 2012

Que hora


é esta?, quando chove

no início de outono, sem apagar

as marcas das pégadas

das ações inacabadas.


Docemente será o fim?, deste folhetim

em verso, que ainda não rasguei

por medo de viver

sem uma história a haver.


Mas tudo passa na vida, tudo passa,

como nesta hora de chuva

que me recorda o limoeiro

sedento, que viu terminado o seu tormento.



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Pauper


Talvez que, na natureza, apenas inveje

os pássaros.

Cantam de madrugada

no raiar do dia

e estendem as asas em voo

em inteira liberdade,

sem momento sombrio.


Quisera ser assim,

mas a minha humana condição

prende-me ao solo da terra

em tais momentos

que são a angústia

do pleno sol na plena luz.



domingo, 23 de setembro de 2012

Vaga-lume


Outrora foi um tempo de pirilampos,

não havia a noite que estava iluminada.

Mas hoje, do tanto que se perdeu,

passados os anos,

fenece a luz.


Poderia já não fazer anos!,

se simplesmente o outono não viesse

talvez eu sempre jovem

mergulhasse apenas

no fio de ouro

do mundo.


Mas... tudo é tão atómico.

Nada dura senão um segundo.



sábado, 22 de setembro de 2012

Madrigal


Silêncio. Gotas de água escorrendo

pela janela aberta.


E o murmúrio inteiro

do céu e do mar

diz-me para confiar.


Talvez o deus da matéria rarefeita

dê aconchego a este Fado

e permita que no influxo das ondas

surja a matéria infinita

a marulhar por sobre os pensamentos

suspensos

através do tempo.



terça-feira, 18 de setembro de 2012

Pôr do sol


Entardece na cidade calmamente

como se o dia perdesse a força do amanhecer

e agora, em silêncio, tombasse

em ouro velho antes da chegada da noite.


Silêncio de água tão puro,

apenas quebrado pelos meus dedos

firmando-se nas teclas do computador

para trazerem à descoberta

o pensamento vago filtrado

pelo exercício desta hora.


E escrevo como se não houvesse senão

um pôr do sol

silente e angustiado

por cima dos telhados das casas,

onde cada um se encerra

na sua tristeza

longe, tão longe, da corrente da natureza.




segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Book-crossing


E que sopre o vento

deixá-lo soprar...

para esquecer a dor

e todo o mal que o mundo tem,

abra-se um livro

que seja de ninguém.



sábado, 15 de setembro de 2012

Clamor


Quem sai de noite para pintar as estrelas

encontra-se mais perto do sol,

talvez Pessoa deambulando

soubesse da justa e perfeita medida:

pintar audazmente o caminho da vida.








quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Líquido cristal


Em Lisboa, a cidade é tua.


És o guerreiro e o herói.

Partes à descoberta dos mundos

e renasces em cada esquina mais

profundo que o sábio índio tribal.


Em Lisboa, não adormeces.


Vives, mesmo à noite, na claridade

do dia e caminhas na estrada do alvorecer

como se não houvesse morrer.


Assim és o citadino perfeito,

capaz de colocar no peito um cravo

ou uma rosa singela,

como se a felicidade, debruçada

da janela, desconhecesse

as dores da última caravela.


 


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Log out...


É assim que me sinto: desligada,

desconectada, apagada.

Nem o canto do pássaro (inexistente)

alimenta o despertar para a realidade da vida.

Podia, como o monge medieval, dormir

300 anos, e acordar como se ainda ontem

tivesse adormecido. Mas onde está a árvore?,

à sombra da qual o tempo se sustém.


Lisboa. Ruas, avenidas e praças. Viadutos modernos,

sem campos de trigo... Apetecia-me agora

fazer delete e apagar todas as palavras,

como à noite se apaga o sol da Vida.



domingo, 9 de setembro de 2012

Lusitânia


Motherland, o que é feito

do canto do pássaro que despertava

na manhã os teus guerreiros

de coragem firme e destemidos?


Vem Viriato, de novo,

ensinar a este Povo

que o jugo da opressão

resigna hoje toda a nação

a aceitar apenas como esmola

um simples pedaço de pão.



sábado, 8 de setembro de 2012

Fim de tarde


acontece sossegado. As árvores, em volta,

vão-se crestando de amarelo.

Será um outono suave?

Chegam-me da rua os murmúrios das crianças

e o som do trânsito na via rápida.

Diferentes percursos se atravessam, assim,

no meu pensamento: o perto que brinca feliz

e o longe que desconheço e é incerto.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Velejador solitário


À vela, segue a minha embarcação

sem naufragar.

Os zéfiros comandam

e quando a aragem é branda

não é possível avançar.

Canseiras, desafios e incertezas

são a suma grandeza

deste caminho de velejador.

Não há cantos de sereias

nem deuses no Olimpo.

Não sou o herói Eneias

nem Gama descobridor.

Por isso a tal Índia a que não chego

é apenas uma pobre nação,

e minha alma é simples rochedo

para o cinzel da minha mão.





quinta-feira, 6 de setembro de 2012

De passagem


É fortuita e passageira

a caminhada na vida;

mas cada dia tem um novo gosto

e uma nova etapa acrescida.


Tempêro de orégãos

sustém na comida

o tal gosto pela vida.




terça-feira, 4 de setembro de 2012

O buscador


Procurar o fio de prumo para aferir

a linha vertical do voo das aves,

na penumbra de fim de tarde.


Procurar o livro que tenha as palavras

mais exatas

para iluminar o anoitecer.


Estas são as tarefas do buscador,

incapaz de vigilante tão só

desfiar o rosário das horas

e das dores até um novo dia nascer.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Vaso de flores


Crisântemos, despedidas de verão,

que hei de plantar,

apenas para ver a nova estação a chegar.


Talvez que na morada dos Céus,

haja um vaso de rosmaninho

para Deus não se sentir tão sozinho.



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Se um mar a Sul


inexistente no pedaço de terra

onde nasci pudesse romper caminho

nessa autoestrada tão reta

e chegasse à minha porta aqui,

talvez que o final de agosto

tivesse outro gosto,

o gosto de uma Ilha Encantada

onde o Rei espera a alvorada

para o regresso

da Lei.


Mas assim, o vaticínio é contrafeito

e a espera longa se espera

tão só como quimera.



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

The cloud


É a nuvem dos nossos pensamentos

alheia ao vento que a empurra

muito para lá da linha do Equador

sem sentir qualquer Dor.


E assim os tormentos serão passado

pois a nuvem está para além

para além de quem a sustém

que não vai a nenhum lado.


Só, sem emoção nem sentimento,

the cloud é a suma grandeza

da matéria de toda a  nossa estranheza.


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Equilíbrio


Ponto de ajustamento

que só o Coração sabe pesar

qual balança onde a esperança

é o peso a contrabalançar.




segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Quem ousou?


Logo de madrugada finda,

oiço a entrevista, na rádio, ao navegador

que solitariamente percorre as milhas da costa,

mar territorial, mar português.


E penso como o balouçar nas ondas,

sem rochedos, nem senão além,

deve ser uma vitória

de valentia.


Tomara que no mar se erguesse esta casa

para testar nas ondas

a minha passagem

neste Cabo sem Adamastor.


 

domingo, 26 de agosto de 2012

Estar 


é saber estar; mas há sítios

que funcionam como ninhos de águia,

ousados e perfeitos, onde a Verdade é súbita

e enérgica. Diz-me a voz mais interna

para me sintonizar com a maravilha dos espaços

e deixar-me fluir

como um líquido que pelo gargalo

encha o recipiente.

Talvez, então, na noite,

a paisagem indiscreta se transforme

e entre a cidade e a aldeia

não fique senão um rasto

de luminosidade clara,

como se sem clarão

se avistasse de qualquer sítio

a mesma montanha;

aquela que  incita

todo o montanhista para além da desdita.




sábado, 25 de agosto de 2012

Para Sul


é o Oriente que eu procuro,

a Índia nova prometida,

o desvelo do mistério mais puro.


E, nas palavras da R., recordo a ação

tão só minha que, como a estrada que me

leva à aldeia, me pertence inteiramente,

sem um turbilhão de gente.


Sorte, desdita? Mas quem me incita?





sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Adivinhação


As amendoeiras floridas

na primavera são o lance da amêndoa

que há de ser.

Assim, esta carta fechada

me mostra o caminho na ampla estrada.

Será a flor da amendoeira

mais verdadeira

e mais exata

que a imperatriz

de Marselha,

que me aconselha?




quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Lentamente


o paquete, qual baleia que sulca

no oceano as águas do mar,

segue a sua rota,

caminhando para a distância ignota.


Mas quem vai a bordo desconhece

a terra firme e o chão do Bugio,

que emerge do rio e do mar,

como  farol a iluminar;

talvez eu um dia navegue também

mais para além deste cabeço de areia

e descubra no luxo de um paquete

as salvas de prata e os fios de diamante

que contentam quem se contenta.





quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Máscara grega


Impressivo o rosto que a face

esconde. Máscara

primeira, quando a palavra

silenciada, é mais ousada

e verdadeira, que a brisa

numa manhã inteira.




terça-feira, 21 de agosto de 2012

Eternidade


do mar absolutamente, se fosse...

E as avós para sempre

viveriam no paraíso das casas

como se o mundo todo espreitasse

pelas janelas

só para vê-las.


Mas há uma estrada que vai para o muito longe,

buraco negro,

vórtice de energia,

que os cientistas procuram;

por isso, a minha oração cabe nos dedos da mão

e são só palavras apenas

para agora dizer que  já é muito tarde.













domingo, 19 de agosto de 2012

Romance


se simples e verdadeiro,

tal como a chuva que cai,

não se perde e se transforma

na alma gentil do homem.


E por isso o vero caminho, e a vera

estrada também, é como uma ponte sobre

um rio - que ao meio não é de ninguém.




sábado, 18 de agosto de 2012

Temperança


Tanta Paz neste recanto,

tanta que escrever ou meditar

parece apenas tão natural

como degustar um bom vinho

na hora de iniciar o caminho.


Quem dera que sempre tranquila e serena

fosse a eterna morada desta vida

peregrina, acontecida

num talhão deste universo

no meio de tanto ser diverso.





 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Pressa


de amanhecer e descobrir as novidades

do dia.

Mas, afinal, tudo É igual

de há mil e um anos na vida.

E quem trabalha de sol a sol continua

a labuta como herdeiro

que não disputa

a sábia e serena meditação

de ter para com os outros compaixão.


Tragam-me uma utopia depressa!, ou se amanhecer

não me acordem!, ou deixem-me continuar no enleio!,

a brincar com este comboio de corda

como se não houvesse mais nada pelo meio.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Espelho d' água


À beira  Tejo, assoma a criança

feliz. Tanto por que brinca,

ninguém lho diz.


E se outrora reconquistada, a cidade

se reedificou, à beira Tejo, contudo,

para sempre ficou,

numa infância bonita,

que tanto se amou.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Do outro lado


Há mais silêncio, quando o silêncio

é inevitável e necessário.


Por isso, o MP3

tem gravadas as palavras

que atravessam esse limiar

na ousadia de diferir

o tempo,

como se agosto houvesse de janeiro

apenas a sombra da luz.


Folheiam-se, assim,

todas as páginas das conversas acabadas

para surpreender um novo fim

numa nova estrada.


Mas, na verdade, em tudo, só há silêncio e mais nada.






terça-feira, 14 de agosto de 2012

Inteligência artificial


O caminheiro fala-me sempre do que É futuro,

em cada uma das suas pausas da viagem de ser viajante.

Nesses momentos, o cântaro de barro

torna-se um artefacto quase religioso e as sinapses

movimentam as utopias

mais fantasiosas

já pensadas.


Possível o diálogo?, com uma máquina que aprende.

Não é de estranhar. Na contradança do mundo,

são infinitas

a inteligência, a criação e a linguagem.





segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Breve


o alto voo da ave

é a seta que percorre o céu

sem tumulto nem estranheza.

E, neste momento, neste verão, tudo,

para mim, é tão claro

como se viajasse, à noite, entre estrelas,

num boeing luminoso,

para atravessar sozinha o deserto do mundo

e encontrar, do outro lado do planeta,

a mesma ave silenciosa

presente no primeiro verso desta prosa.








domingo, 12 de agosto de 2012

Que importa


a viagem das horas - branco navio - ?,

se a trágica vertigem

da desgraça e da guerra

e da fome te consomem, companheiro

de morada distante.


Paraíso é a lembrança

(que trago) dos verdes campos e dos ribeiros

tão desertos de humanidade 

como se não houvera senão uma terra e um céu

e nunca um sexto dia.






 

sábado, 11 de agosto de 2012

Templo de Delfos


O que é uma tarde?,

quando em cada sete anos de vida

Saturno cumpre como mestre sua passagem.


Contudo, que importa!,

pode ou não o homem, na sua medida,

avançar no caminho da vida?



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Mikado


O herói é aquele que balança.


Às vezes a condenação não é visível,

não há marcas no rosto nem nas mãos,

e o lastro da corrente

é como uma esfera dútil e quente

que rola, rola, irredutível.


Pudera agarrar esta esfera inquieta

qual ameaça que se aniquila

e sossegadamente caminhar para a meta

certo, o herói, de uma vitória tranquila.


Mas não! O balanço é tremendo

e só mão na mão com um deus

o mais frágil se elevará,

para além das alturas da má sorte,

como para vencer a morte.





quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Da cidade branca


e turística

para o mundo nunca partiram caravelas.

Ao invés, cada parede de alvenaria

conta uma história

de séculos

onde povos e tradições

se cruzaram: cristãos e mouros,

apátridas e arrivistas,

e a multidão de turistas

embalada pela procura do santo graal

oculto nos ossos da capela.


Mas eis que nauticamente me aproximo

da cidade branca

e como um tição que em mim arde

incendeiam- se as paredes

à espreita da descoberta da Índia

futura - aquela que há de ser

quando todas as tormentas foram navegadas

e no lustro dos anos

a serena sapiência como um molde de barro

me abrasar toda a tarde.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Ciranda


Que bocado do passado

entrou furtivo pela minha janela aberta?

Os rostos das fotografias,

os rostos que jamais conheci,

estão todos nas histórias que esqueci

daquela infância

tão breve.


Mas é este o chão

de um outro tempo.


Chão que se levanta

como um dia que acorda

sem um suspiro na curva da estrada

apenas povoado dessas memórias inexistentes.


Onde era largado o chapéu?

Onde a sopa fervia?

Que silêncio ou que vozes habitavam

no coração da casa?


Hoje a única certeza de que existiu esse outro tempo

está presente no rebanho que regressa dos campos

quase ao anoitecer

qual sino que tange

as horas do adormecer.






terça-feira, 7 de agosto de 2012

Que tão longe


o mar e ao alto o céu e as estrelas.


Como aqui todas as distâncias são magníficas,

numa lonjura de grandeza perfeita

entre o claro do silêncio

abstrato na noite

e aquela cor difusa e diurna

que se sente na madrugada dentro.


E se agora estou escrevendo,

neste oceano galático e náutico,

agradeço ao caminheiro,

aquele da eterna estrada sem desvios,

que, depois que eu parta, caminhará ainda para além

de mim, para sempre esquecidos os meus sonhos.


Afinal, descubro,

o silêncio é tão exato e necessário

quanto o tamborilar dos dedos na corola de uma flor

liberta das  raízes na terra

barrenta e sôfrega

da multidão dos que admiram

uma beleza sofrida.






terça-feira, 31 de julho de 2012

Moldura


A espera exige arte,

como se em qualquer parte

o tempo fosse mais lento e severo.


Por isso o caminho na tarde

balança sem saber se é por saudade

que a mandala desfeita

permanece

no meu pensamento

tão de Sul sedento.






 

sábado, 28 de julho de 2012

Dia pré-claro


Do cinzento do céu move-se o meu dia

já quase próximo para Sul,

onde encontrarei aquela outra luz

mais quente

e também a outra gente,

gente de trabalho sem oração,

que vive do silêncio do coração.


Mas não há uma quebra na minha vida.


Lá no Sul, no mês de agosto,

o canteiro cultivado,

tão próximo das ruínas do Templo,

aguarda pelos frutos da colheita

tão breve, mas que a todos sujeita.



sexta-feira, 27 de julho de 2012

Tormenta


Quis o destino que me cruzasse com ele,

ou, dito de outra forma,

ele forçou o cruzar-se na ampla estrada comigo.

Olhei-o inicialmente como quem se vê

a si no outro, num espelho,

onde tudo se reflecte ao contrário;

mas essa sina tão distinta - necessária e justamente -

poderia ser a minha: numa mão sempre a pena...


E tudo isto, hoje, faz-me pensar que o ato criativo,

seja ele qual  for, não é possível sem uma ampla

margem de Tempo e Liberdade, porque ninguém

desponta perfeito e acabado, cada um apenas segue a jornada

e a labuta do agricultor, sendo a colheita tão sempre incerta e imperfeita.







quinta-feira, 26 de julho de 2012

Passa cada ano


como passa cada dia

e, às vezes, é com surpresa

que entendo como é voraz esta linha

que sem descanso nos encaminha para a despedida.


Pudera ser tão perfeita e clara,

como uma fonte para um rio escorrendo,

não foram os descaminhos

sem sentido,

os verdadeiros e os falsos perigos,

a comédia trágica do homem...

E, para além desta secretária, frente à qual estou sentada,

escrevendo no teclado do computador, fica o mundo,

então penso: «que mundo é este

que acorrenta, espanca, viola,

como se a vida fosse uma migalha e uma esmola?»


Da minha janela aberta,

a linha corre para a meta.




quarta-feira, 25 de julho de 2012

Cristal


Algures em Sintra, amanhece mais cedo,

como se num qualquer rochedo

se desenhasse estival a hora da aurora

para o despertar do caminheiro.



E no cristal líquido,

que não morre,

vejo em ti a temperança

como uma esperança que sempre escorre.


Troço a troço, sei, já saberás, que o caminho,

cumprido ao amanhecer,

é mais fácil de viver.




terça-feira, 24 de julho de 2012

Tão longe


dos deuses é a morada

que, neste sítio onde eu vivo,

a terra dos rios, dos lagos, dos continentes

e dos desertos e dos mares, tudo é sujeito à imperfeição.


Por isso, nunca à noitinha

me surpreendem as notícias na televisão:

da resenha do dia,

meu rosto nem vibra de comoção;

antes me deleita saber dos deuses tranquilos,

bebendo da ambrosia, imortalmente,

na sua morada, tanto como se aqui,

neste sítio, nunca não se passasse nada.






domingo, 22 de julho de 2012

Estrela


'It's a turning point', acredito,

e o eterno verão do ânimo constante

chegou, enfim, caminheiro, àquela esquina

da tua vida que assim jamais será perdida.


E do labirinto das ruas de Londres

para o Mundo

despontou a mais rara qualidade:

a dádiva aos outros

daquilo que nos falta a nós,

«sir, one penny, o oiro das neblinas».





sexta-feira, 20 de julho de 2012

Olhando para trás


às avessas, de contra o tempo,

anoto sobre o joelho

cada momento

protegido

sem que a alma sentisse o perigo.


E para mais me espantar

observo que na curva da sorte

o resultado foi igual seguindo para Sul ou para Norte.


Assim, no umbral em que sempre me encontro

procuro apenas o Bem e não o Mal,

mas aceitando o Destino,

para que, da clemência dos deuses,

nasça certo entendimento

para a Dor sempre eterna no presente.




quinta-feira, 19 de julho de 2012

Em festa


e iluminados os veleiros no cais de Alfama

não sabem do fogo que alastra;

rir e cantar tão próximos são de chorar.


Mais perto, nas vielas, o Fado

castiga toda a traição

dos fadistas

à memória, à amizade, e à triste verdade

de uma letra de canção

que una coração com coração.




quarta-feira, 18 de julho de 2012

The moor


Terreno instável.

Passo a passo prossegues o caminho.

Admiro a tua perseverança,

caminheiro,

neste novo tempo em que os jovens envelhecem

tão cedo

por não crescerem.









terça-feira, 17 de julho de 2012

O escritor


Surpreende-me, ainda, quando alguém

clama para si o estatuto de escritor como representando

o ato de uma façanha superior. E, nestes momentos, recordo-me

do escritor. Aquele que em tempos tão idos eu conheci, sentado no

seu sofá da sala, e falando do ato da escrita com a ligeireza de quem

valoriza, antes de mais, o facto de Ser. E um conselho deixou cair,

a meio da conversa, é preciso trazer algo de novo... Por isso, quando

folheio alguns livros de autores novos, procuro sempre a confirmação daquela

ideia: o que trazem de novo? E soa frágil o elogio, quando não vislumbro

uma nova qualidade. E, ao invés, quando descubro no caráter

tibiezas de uma fragilidade humana mesquinha. Não é, assim, grande quem quer;

só é grande quem pode. Faça-se primeiro o homem e só depois o escritor.



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Ao lado, o outro


Tocam à porta. Num instante abro,

mas não há ninguém. A carruagem do metro

acelera entre as estações e, no Marquês, entra

o cowboi americano. Desacerto no ringue- toque do

telemóvel, que se silencia antes de eu falar.

E em tudo isto reside o universo dos outros;

daqui é tão perto para o longe,

que a minha morada

parece como um ninho de cegonha

eternamente alpendurado

na firme, sólida, esperança

de que fique na lembrança.



domingo, 15 de julho de 2012

Despertares


Quando, a cada dia, no silêncio, a cidade

desperta, nasce sempre uma nova esperança;

pena é que tão breve não dure mais do que um segundo,

a ilusão da aurora no limiar do mundo.





quinta-feira, 12 de julho de 2012

Nas ruas


logo ao amanhecer, o empedrado da calçada

lisboeta brilha como se água escorresse

por sobre os passeios.

Homenagem justa

a todo o trabalho e a toda a obra é qual

fio de água

que escorre da canseira e do esforço

de qualquer arte, como a do calceteiro,

sem triunfo nem alvoroço.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

No


Se desenhasse, desenharia de memória

as formas arredondadas que marcam todo o corpo

da terra a sul. Grácil e feminina, a planície estende-se

e alonga-se como se o movimento das pequenas elevações

do terreno serpenteasse pelo espaço até no limite do horizonte

tocar o azul do céu. Mas não. No. Este é um terreno rasteiro. Não existem

os picos da alta montanha da reclusão e da ascensão. Por isso,

regressa-se igual ao que se é, apenas o vislumbre

de um certo sentido de infinito

fica em nós ao pé.




segunda-feira, 9 de julho de 2012

Epicurismo


Há dias com uma especial energia -

sente-se e quase se toca de tão densa que é.

Não raro,

nos dias aziagos,

tudo corre mal.

E neste entendimento do temperamento

instável dos meses e das semanas

solta-se tão leve, hoje,

a palavra impronunciada

como se dizer fosse nada.



domingo, 8 de julho de 2012

Que magia


para parar o vento, neste momento,

posso eu fazer?

O vento traz o lamento

de me lembrar, de não me esquecer;

como numa página aberta

onde a palavra e o nome se descobre

vem este vento num desalento

meu pensamento

deixar mais pobre.







sábado, 7 de julho de 2012

Permanecer


igual na incomum multidão

de tanto ser diferente;

ou talvez o contrário, permanecer diferente

no deserto incomum de tanta gente igual.


Fio de prumo do olhar

encontra a verticalidade ténue da forma

na corola calcária

da flor do poeta

que outrora amei; mas, hoje, tanto é o tempo distante,

que pouco importa ser e não ser.

Tal é durar é permanecer.




sexta-feira, 6 de julho de 2012

Amanhece


Céu sereno.

Horas para gastar.

Talvez no Facebook o romance prossiga

alinhavado pelas imagens do mundo

e eu possa espreitar, na distância

de mim para o outro, a realidade.

Horas para gastar sempre

num precipício

sem sombras

cujo vazio é o vácuo inexistente.


Por isso, como Ulisses em Ogígia,

me interrogo, ambicionando os duros caminhos

dos mares, os naufrágios e as tormentas,

que me hão de levar,

na humana condição,

para lá da primavera e do verão.





quinta-feira, 5 de julho de 2012

Tátil


Lembrança, das linhas da tua palma da mão

num corte abrupto, nem sei porquê. Talvez porque «tátil»

é agora, na grafia, nova palavra e subtilmente me mostra no tempo

a descontinuidade. Talvez porque a partícula «novíssima»

não seja senão a vontade tátil de deus e eu perceba

finalmente que há nos outros um igual mistério

tão igual quanto o assombro de mim.


Por isso tatilmente percorro o tampo da mesa

e, sem surpresa, sinto nesta massa de cordas

as descontinuidades perfeitas

e insuspeitas.



quarta-feira, 4 de julho de 2012

Do lado da serra


É mais verde esta encosta.

É mais cinzento o céu

como se adivinhasse o cabo do mar.

Quase finisterra,

habito a Ocidente,

e, estranhamente, nesta solidão

da vizinhança com o oceano,

nasce absurda uma esperança

de não ser só somente.


Mas a esperança da gente é a esperança

de alcançar um novo reino e uma nova ordem,

um sonho enfim de que todos acordem.





terça-feira, 3 de julho de 2012

Coral


No fundo do mar, entre algas e rochedos,

a cor não sustém o segredo

de sereias e tritões.

Tais maravilhosos seres povoam

os mares

da imaginação

e, na praia, no areal,

quando, ao fim da tarde, as gaivotas vêm pousar,

entreabre-se o portal

e já não há bem nem há mal

apenas a simples Verdade da praia no final da tarde.



segunda-feira, 2 de julho de 2012

Chão


Sem chão é o mar

como um barco a navegar,

para de ilha em ilha, de continente em continente,

experimentar

cada solo que sustenta e tem

a maresia que não é de ninguém.


 

domingo, 1 de julho de 2012

A cada passo


a pegada é o vestígio que fica da passada.


Por isso, numa linha de areia,

o mar varre

cada marca impiedosamente.


Porque guardamos então, nós, as pegadas?,

como búzios e conchas

numa lata fechada,

longe da espuma desfeita

tão perfeita?



sexta-feira, 29 de junho de 2012

Momento


tão fugaz... uma... duas vezes repetido...

estranho enlace da Vida...

E do que fica na lembrança

é um instante futuro de esperança

que haja, e seja, verdade

acontecida,

uma e uma vidas

unidas.



domingo, 24 de junho de 2012

Dia de São João


À noite, ontem, à noitinha,

dancei, cantei e a fogueira saltei.


Lembranças de outros tempos, quando a cidade

da infância se iluminava em cada beco e em cada rua

para uma festa constante entre adultos e crianças

e os santos das esperanças.


Mas, ontem, tive de percorrer um longo caminho

para ir ao encontro da tradição perdida;

e a estrada, que me levou

ao campo e às gentes singulares,

foi a estrada da jornada,

do caminho dos encontros fortuitos,

que assinala que eu sou apenas um entre muitos.









sexta-feira, 22 de junho de 2012

A ver o rio


na regata dos veleiros,

nem pensei nos marinheiros,

andantes de tantos cais;

antes me ocorreu o devaneio,

nem sei se sonho primeiro,

de velejar como os demais

e partir,

numa regata universal,

por esse espaço sideral,

onde brilham estrelas e astros,

e onde eu fosse de um cometa o rastro

de um desejo a cumprir.








quinta-feira, 21 de junho de 2012

O dia mais longo


se agiganta na tarde.

Olho, então, para dentro e acredito

que algo em mim arde num eterno verão

sem brisa nem alarde. Talvez, se eu sempre

procurasse este tempo tão de remanso,

talvez em mim encontrasse

a alma, o espírito e a natureza

da mais perfeita certeza.





quarta-feira, 20 de junho de 2012

Flipper


Talvez que no universo alietório

do trajeto da bola haja um destino

traçado... tanto quanto num jogo de azar

sair a carta certa para jogar.


Porém me inspira a máquina eletrónica,

capaz de ser um cosmos universal

neste mundo

estranho e desigual.


E autisticamente sigo em frente,

podendo parar e falar,

como uma esfera que rola,

que rola na vida, sempre a pontuar.




terça-feira, 19 de junho de 2012

Instantaneamente


Hoje, o cabo do mundo não mais é distante.

Como num voo de borboleta,

pétala a pétala, flor em flor,

justamente num momento sabemos o que acontece

lá tão longe quanto o império foi.


E aqui, na minha casa,

entre a serra

e o mar,

tenho o mundo à minha beira

sem precisar de navegar.


Assombro do tempo: instantaneamente

conhecemos.






segunda-feira, 18 de junho de 2012

Labirinto


O silêncio e a memória das palavras constroem

veredas neste espaço. E são como grades cerradas.

Dizer «não, não vou por aí»

ecoa no meu pensamento como se, se partida a corda

do sentimento, não restasse

qualquer Verdade

senão mentira e falsidade.


E, então, evoco a epopeia de mim

trágica mas perfeita

em que na sombra do erro

epicamente, bem sei, verdadeiramente gritei.



domingo, 17 de junho de 2012

Ex-voto


Tu, que pela música pelo céu viajas,

pede àquele que te alumia

a força e a proteção

exatas.

Tão exatas como

a resolução de uma inequação,

no instante mesmo

do Solstício de verão.









sábado, 16 de junho de 2012

Resistente


a haste, que há de ser o tronco do limoeiro

de folhas verdes, me surpreende. À canícula

agreste e sem chuva, persiste, solitariamente,

o limoeiro na sua labuta de ser.

Por isso, sempre ao fim da tarde,

quando ao longe, mas tão perto, os chocalhos

do rebanho assinalavam o regresso dos animais dos campos,

ficava eu, num pasmo, olhando o limoeiro, embevecida

naquela tão pura resistência pela vida.


E, então, já nada me espanta.

Nem mesmo ter sido dita a palavra «amor»

como quando se colhe uma efémera flor.



terça-feira, 12 de junho de 2012

Rumo


breve ao Sul. Lá onde

paralisadas as árvores no fogareu

se colhem frutos e flores

no meio de searas

inexistentes.


E se tudo é um sonho das gentes

talvez, lá tão longe, no outro lado,

na Síria, seja sonho também o pecado.


 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Incidência


por certo da luz, mais perto, tocável.

Amanhecer em alba. E as horas do dia

foram exatas porque o tempo não se perdeu

num holocausto que grita

o sacrifício das Horas em nós.


Eterna Criança da sabedoria que brinca,

que brinca, toda a noite e todo o dia.



domingo, 10 de junho de 2012

Tejo


O Tejo, que eu vejo

por entre as colunas do cais,

não abraça o meu desejo de ir

para além e muito mais. O Tejo

da longuíssima distância, constante

nos meus pensamentos, é como o Anjo

zelador que conhece a nossa dor.


Por isso, num dia como o de hoje, Tejo,

te invoco em esperança

e em tributo da saudade

que havemos

do mar jamais ser sereno.









sábado, 9 de junho de 2012

Rota do vento


Viagem para longe:

instantaneamente partir e chegar,

sem ter de atravessar uma Lisboa deserta.


Será isto a decadência?,

ou apenas sinal da nossa mais absoluta ausência?






sexta-feira, 8 de junho de 2012

Brincando


com as palavras, num entre trecho,

descubro aquelas que nunca proferi:

e, inaudível, parte de mim

segreda

em cada linha

como se o tempo chegasse ao fim.


Que coragem dizer um adeus!,

para todo o sempre,

como quem promete não mais

olhar um rosto

nem ter um desgosto

nem estar próximo de Zeus.





quinta-feira, 7 de junho de 2012

Arte


Capricho de uma nota só,

na partitura fechada,

tal como o trajeto por uma estrada,

trajeto reto

e sempre igual em dó.



Por isso as duas baianas

pesadas me lembraram do passado

a melodia, dó, ré, mi, fá,

quando tão jovens

ainda

tudo nos parecia uma sinfonia.





quarta-feira, 6 de junho de 2012

Portal


Quando a porta giratória inicia o balanço

de avanço, saio ou em vez

deixo-me ficar?,

como se estivesse à beira do mar?


E a onda de encontro ao rochedo,

na praia deserta,

sem qualquer medo,

revela um segredo...

no abraço que recebo sem o esperar.





 






terça-feira, 5 de junho de 2012

Jacarandás


De luminoso fruto brota uma árvore

imaginária, semente que germina

até ao ser

para na mente se conter.


Sonho de jacarandá

luminoso, quando atravesso

a rua e fica um esteio

violeta da minha passagem,

como se fora um voo de margem para margem.



segunda-feira, 4 de junho de 2012

Olhar a luz


que entra, neste instante, pela janela,

olhá-la, vê-la, e não saber o nome dela.


Luzeiro!, Sol!, que nome hás,

neste fervor,

do fim de tarde, do entardecer,

tão secreto como o hausto de morrer?





domingo, 3 de junho de 2012

Movimento


No fio de um momento,

parece que toda a vida se esvai;

mas, porém, não é assim,

há um impulso e outro e mais...


Serei eu, hoje, o amigo americano do L.,

tal como a mim mesma sucedeu

há um ano?


Num lapso de tempo, entendo tão bem:

o outro é sempre alguém.


sábado, 2 de junho de 2012

Filtro do olvido


Bebi da taça o filtro,

gole a gole,

como quem sabe

a verdade,

mas prefere esquecê-la.


Triste camaleão!,

desconheces que o tudo

em que te moves é ilusão!



sexta-feira, 1 de junho de 2012

Eternamente


te direi

que este é o mar e naveguei

seguindo uma constelação constante

no teu abraço firme e vibrante.


E assim amo o devir

das fontes

jorrando nas imensas lajes

qual jura de amor trocada

no caminho de uma estrada

sempre bela e  desejada.


Mas talvez que o entardecer

seja a luz do não mais esquecer

para mão na mão te dizer:

meu amor, não há perder.



quinta-feira, 31 de maio de 2012

Curso do tempo


Maio ido, que se vai;

mas eu recordo vivamente

os rostos e os gestos ancestrais.

Mestras sem voz nem sebenta

sois para mim

como um perfume

de verdade e de imensidade

que exala

de qualquer flor campestre

que não se esquece.



terça-feira, 29 de maio de 2012

Docemente


Capturar uma Estrela

e vê-la,

e adormecê-la no colo...


Eis o instante breve e vibrante,

que sem Longe nem Passado,

mora sempre a meu lado.



segunda-feira, 28 de maio de 2012

Era uma vez...


e, sem começar nem acabar,

a história se desfez.

Era uma vez...



Búzio, que na aurora prendes

o som do vozear do mar,

sê mensageiro

talvez

de «Era uma vez...».






domingo, 27 de maio de 2012

Sem fim


eternamente, crescerá a árvore

que vejo da minha janela

e, quando o azul do céu tocarem

os verdes ramos, sem fim,

eternamente,

mensageira do assombro,

cantarei.


E só, então, ao mundo, a Paz

em paz há de chegar.



sábado, 26 de maio de 2012

Orvalho


na escuta do coração;

e, singelamente, procuro o caminho

luminoso e puro

onde os Anjos tecem em renda

cada dia como oferenda

para to dar breve e inteiro.


Mas que te dizer?, filho, sobre a caminhada,

sobre a longa, longa, jornada,

em que só, tu és o caminheiro?



sexta-feira, 25 de maio de 2012

Dimensão


Na escuta do silêncio,

perdi uma a uma todas as palavras.

............................................................

- Lírio, que te escondes,

diz-me, minh'alma mora onde?



quarta-feira, 23 de maio de 2012

Algures


o Tempo... evoca, nas sacadas,

a infância brincada por entre vasos de flores.

Tão longe é

que hoje só me lembra uma aguarela

que simplesmente pintada

fotografasse uma memória desbotada.


Por isso, da janela agora

espreito

apenas o devir

para sentir a náusea

de, afinal, tão curta distância: a velhice e a infância!








domingo, 20 de maio de 2012

Puzzle


Mil e uma peças defronte.


E o caminheiro encontra Alice (a da toca e a do espelho)

e pergunta-lhe, com razão,

se a longa estrada e o caminho

vão para o castelo do Ogre amarelo;

Alice não responde,

e, súbito, sem saber como nem onde,

vê-se apenas no castelo do Ogre amarelo.






sábado, 19 de maio de 2012

Chuva


que cai!, e o meu corpo balança

no algodão

da cinzenta nuvem

como se apenas transmigrasse.


 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dia da espiga


«As águas dos ribeiros não correm,

o leite não coalha,

o pão não leveda

e as folhas se cruzam»,

diz o rifão popular.


Também, hoje, colhi o meu raminho

que está pendurado no meu lar

a lembrar

o campo e as searas

de um momento por achar...


Mas se o rifão está certo,

há uma hora silenciosa,

em que tudo pára no tempo,

e em que não há verso nem glosa.

E nesse momento - hora súbita -

maio florirá de verdade

tanto, que do campo, entre estrelas,

poderás na claridade vê-las.








terça-feira, 15 de maio de 2012

Lágrima


vertida... descaminho da vida...

e gotejante

lava com fé

o empedrado dos passeios

onde às vezes assento as plantas dos pés

para perceber

onde está enterrada a raiz;

«onde?!», mas  ninguém mo diz.

 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Miserere


Agreste, do fundo do tempo,

voz que clama

em salvação:

«Expiação!».



Sonho doce.

Cantata dormente.

Tão estranha a natureza da gente.


 

domingo, 13 de maio de 2012

Sépia


Goteja a duas cores

da fachada dos prédios sem mirante

a idade triste da vida,

longa, esquecida, perdida.


Mas, na densidade do céu,

quase sépia, que escureceu,

uma fotografia

desponta: rosto a rosto,

montra a montra,

como uma memória velada

num quase vão de escada.




sábado, 12 de maio de 2012

Silêncio


talvez na forma como

a cadência do dia segue

o ritmo das marés de um longínquo

mar.

Chegada e partida

são movimentos da vida, que observo,

neste sossego,

que parece tão eterno

como se não houvesse que uma longa tarde

sem despedida nem saudação

aos que chegam e aos que agora vão.


 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Aula aberta


Vieira foi o mote

da aula que escutei e, de tudo,

registei no rigor de um testamento

tais palavras vieirinas,

«morrer de muitos anos, e viver muitos anos,

não é a mesma coisa».

Tão certos o pensamento e as palavras,

que algo acrescentar

seria inusitada bizarria.


Por isso, hoje, colhi uma flor

e estremeci-a com afeto

como se a morte estivesse perto.



terça-feira, 8 de maio de 2012

Teatro


Em espiral roda, rola, gira

a vida, que tal coisa já acontecida

renasce, ressurge, acontece, vem.

E, mal ou bem, em cena, em palco,

se movimentam os atores.

«É teatro», dizem os Senhores.


Que poder tem a vontade conquistada,

mas mísera e mesquinha,

face à teia rainha?





segunda-feira, 7 de maio de 2012

Palavras


escritas em livro chegaram-me

hoje às mãos...

Ler é  louca paixão,

mas a eterna sedução é escrever;

e ainda que o sentido seja dúbio e o alicerce

frágil, cada palavra que brota

é vitória

e não derrota.


Mar adentro da alma,

palavra, sopro, sonho, calma.



domingo, 6 de maio de 2012

Cristalizações


Branco, branco frágil,

e azul  perpassam no céu...

quando o silêncio da manhã é mais profundo.

Estranha aurora do mundo,

que gota a gota

do orvalho

cristaliza em cada homem

a fatalidade do ser

e nisso se some o viver.



sábado, 5 de maio de 2012

Prodígio


Em três dias, os ramos das árvores

ficaram pejados de folhas, rebentos novos,

como se a natureza eclodisse num momento.


Também o homem

devia subitamente florir,

na sua primavera,

sem dúvida nem espera.




sexta-feira, 4 de maio de 2012

Intervalo


na vida. Pausa breve

para que o destino breve

recoloque as peças sobre o tabuleiro.


É maio, não é janeiro,

e o comboio segue a via;

nele as pessoas vão

entrando e descendo em cada estação.















quarta-feira, 2 de maio de 2012

Da minha janela


aberta, vê-se um rio e um oceano,

todo um imenso mar ainda por explorar...


Os pombos e as avezinhas - as pretas andorinhas -

esvoaçam e chilreiam defronte

como se para lá

tudo fosse apenas alegre e estival,

e, sem sinal de destruição ou guerra,

tão doce a vida na terra...


Por isso, não fecho a vidraça,

e um dia destes embarcarei - aonde aportarei? Não o sei.



 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Maio florido


Será um maio florido,

num recanto de cores, este maio

amanhecido e perdido em amores?


Será, talvez, como tuba canora e singela,

um maio

formoso e vibrante

que o hino que em nós arde

soará por um instante?


Tudo será, enfim talvez,

este maio

que celebra

a colheita e o trabalho

o amor e o coração

e a força na união.


E qual deusa da vida,

em maio, não mais esquecida!





domingo, 29 de abril de 2012

Projeto


de sol sob o lancil da minha varanda

para que, quando me debruce,

toda a luz me aqueça e me adormeça,

como se a perfeição

estivesse na minha mão.










sábado, 28 de abril de 2012

Indiscutivelmente


pedaço a pedaço o silêncio

povoa as ruas outrora

tão vibrantes.

Envelhece

o bairro

e a cidade

e é sempre triste o fim.


Por isso, na decadência do Império,

deve ter havido também

este mesmo silêncio

a povoar os mares

...............................................

- onde as naus? onde ancoradas estão?


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Canto à liberdade


De olhos humedecidos,

e de bandeira desfraldada,

cantámos canções heroicas

como se fizéssemos a jornada.


Mas hoje, revisitado

o momento,

bate bate o Coração

como um Tambor

ao som da canção.


Bravíssimos!, os cantores

da Liberdade, senhores!










domingo, 22 de abril de 2012

Lua em ouro e prata



Arquétipo

de uma ausência, carência,

esse frágil tão frágil que em todos nós

habita.

Pulsar de um longe tão distante,

que, quando te abri a porta,

tive à minha frente

inteira

a lua na minha mão.

E então síncronos o ensinamento e a vida

balouçaram

nos braços da Justiça

tão perfeitamente que foi

noite e clarão hoje na manhã e na tarde.












quinta-feira, 19 de abril de 2012

Só os plátanos


adormecidos nos pátios

do velho edifício

saberão talvez da cadência

monocórdica

dos versos perdidos

e nunca ditos.


Velhas árvores,

aguentai um pouco mais!,

aguentai sem um ai!,

pois também este poema aguarda e espera

no balanço dos dias

pela luz do adormecer.





quarta-feira, 18 de abril de 2012

Estilhaços


E, de repente, com um som vindo do vazio e do nada,

o copo alto,

cheio de lápis e de canetas,

quebrou-se

em estilhaços.


Quisera recompor a peça...

mas, quando algo se estilhaça,

o melhor é varrer e esquecer,

diz o Destino,

o fazedor de teias,

avisando

que nada é permanente

na vida da gente.





terça-feira, 17 de abril de 2012

Saudade


Móvel sentimento de lembrança,

doce e amaro,

como uma esperança

que já não é.


E o brinquedo de madeira

de corda, ave que rola para sempre

aos meus pés,

simples e singelamente

é pensamento dormente

roda que rola

tão eternamente.


Pudesse eu o tempo parar!,

com a ave sempre a girar!




 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Nouvelle vague


Computação. Ordenação.

Estatística. Estatística.

Olhar o quadro e não ver.

Computação. Ordenação.

Algoritmo.



E quem pôs o braço no ar

não sabia

a palavra  «versejar».




domingo, 15 de abril de 2012

Rewind


O que é fantástico na Modernidade

presente, desde há quase um século, é a

possibilidade de deixar o tempo transcorrer

e, depois, rebobinar,

voltar atrás, e rever toda a sequência

perfeitamente e exatamente como sucedeu

sem falhas nem lapsos.

Emergência de uma tecnologia nova

que permite o registo fiel do som e da imagem.


Por isso, tão grata é hoje a análise

retrospetiva. E, deitados no divã do psicanalista,

revisitamos, vezes sem conta,

fragmentos das nossas vidas, tentando

encontrar o fio, o nexo, o pretexto

para a indolência e para o desconforto.

Voltar atrás para melhorar o presente: mas

para alguns, o perigo é ficar para sempre enredado

nesta malha tão bem urdida - ver/rever o filme

sem viver a vida.



quinta-feira, 12 de abril de 2012

De esgueira


O povoamento

constrói uma outra Natureza,

aquela que observo debruçada do parapeito

deste quinto andar...

Que gigantes

habitam tais casas

como estas enormes edificações

para o alto?, pensar-se-ia.

Mas não é assim. No posto dos correios

encontrei as gentes - que não são gigantes imponentes -

a enviar e a receber encomendas e cartas;

exatamente

como numa aldeia

remotamente perdida

as palavras que chegam amanhecem

a vida.