Agora que anoitece deixo da alvorada
o segredo do dia
e limpo os recantos da Alma
devagar
para poder Amar.
Agora que anoitece deixo da alvorada
o segredo do dia
e limpo os recantos da Alma
devagar
para poder Amar.
Atravessa a distância
essa ínfima razão
que está bem no centro do coração -
e logo esquece
que pensar
traz a mágoa
aos olhos rasos de água.
Fazes da vastidão das searas
o teu Silêncio,
e a minha chávena com café esfria
até não apetecer bebê-lo,
mas bebo. Sorvo esta negra bebida
como quem sorve
a sua negra
vida.
Colho cada página,
como quem colhe aquela Flor
e o seu fragor incensa uma mão lisa -
e na calma limpa de tempestade
a Flor mira a eternidade
divina
na Luz que a ilumina.
Lá está, a Beleza de um dia de chuva
é mergulharmos os sentidos
todos
na tátil humidade que conserva
o alimento da Alma
no exterior de Si
pensando que o dentro é ali.
Nada faço: apenas creio.
E suporta-me a vaidade de crer
para Além da escuta
da Palavra,
como se pudesse viver
alegremente
por inteiro
num Sonho verdadeiro.
Cai a neve no meu Coração
e é uma brandura
sossegada
de como que se finaliza uma jornada -
cai a neve no meu Coração
mas é quente o peito na minha mão.
Numa escuta sem razão,
o pensador
interrompe a travessia do Mundo
para colher
do campo a flor do trigo
e ter nela
o seu abrigo.
Em pleno voo,
a ave
vem habitar o mistério de todos os dias -
chuva ou sol
cadência do vento ou da brisa suave -
mistério de haver
uma Consciência em cada Ser.
Chegas, na manhã limpa de nevoeiro,
e trazes
mais luz à claridade do dia -
assim te imagino
desde que o tempo é eterno
e os deuses rarefeitos
são modelos perfeitos.
A paciência que é feita de tempo
perdura no consolo
da raiz
do desespero -
longa linha que entorpece
e que nunca, ou quase nunca, se desvanece.
Do horizonte que respira a luz
do casario longínquo
não me perco em pensamento -
mas das folhas do meu quintal
vem a ideia
e a ideia e a ideia
e disso se arma uma teia.
Com as aves eu percorri o Caminho
límpido e puro
e sem idade
que leva ao bom porto da Liberdade.
A tarde esfria e impiedosa
desassossega até a minha Paz
torvelinho disperso
na Dor
que é a ausência de Ti, Senhor.
Todos os dias,
desde há uma eternidade,
por ti passo, ó Lisboa,
como se numa cidade me perdesse
e procurasse
o cais
daqueles que são mortais.
Acendo a luz
num compasso de espera
antes da Noite;
e sei que o Mundo é maior do que os meus sonhos
e sei que o Mundo me visita por vezes,
fugitivamente,
como num segredo,
e parece-me que caminho demasiado cedo.
Dita-me, muito devagar,
essas letras do verbo Amar,
e, depois, de as dizeres
tão naturalmente como quem as sente
deixa que seja quase contente
esta vida no presente.
Volto ali.
Regresso sem regressar,
pois o presente é estar
onde um homem puder ser
livre
e de toda a corrente
resgatado eternamente.
Da lembrança da chuva
se faz este verso
de janeiro -
choveu, água correu,
e meu Coração não estremeceu.
Extenso é o mapa daquilo que vejo
na hora, agora longínqua,
do amanhecer -
primeira maré do dia
- que o meu olhar vigia,
procurando, nesse relento do mundo,
o sinal
de ser a Paz o cardinal.
Melancólica,
na tarde cinzenta,
obrigo-me a sorrir -
gentileza que a Mim faço
e a que obedeço:
é sorrindo que me reconheço.
É sempre assim
uma ternura,
que no Longe perdura,
e que vem, como uma onda do mar,
libertar o teu olhar
dos milénios da dor,
pois tu és só Amor.
Estranha condição
de chorar,
no ocaso da Luz;
quando nasce um verso
e nada em Mim é disperso.
Movimento a movimento,
a ave vai buscar
a parede do seu lar;
assim também eu vou construindo
esta casa de versos
lar que me dá o abrigo
como o Abraço dum amigo.
Desmancha o horizonte sagrado
e vê do infinito a Luz,
porque só lá fora
podes encontrar
do verso a medida
e do homem a guarida.
Quem sabe dos caminhos andados?,
da sombra e do pecado,
daqueles que vieram por fim
(e eles são para Mim
o homem completo e inteiro
que busca - e encontra - o caminho verdadeiro).
Sei de um jardim
que só existe na lembrança
de um tempo de à roda brincar nesse lugar
e porque brincava era feliz talvez,
como era feliz também,
sempre feliz,
com a vida que deus quis.
A brancura das nuvens
que eu vejo e que passam
tem no Céu a sua graça
farrapos de névoa ou de nevoeiro
em que eu vejo o meu corpo inteiro.
Sempre em pé, árvore
agora despida,
aguarda que este inverno da vida
seja um florescer
do mistério do teu Ser.
A chávena de café e a colher pequena
parecem ser realidade,
mas e o lusco-fusco da tarde?,
a sombra sem idade,
e a Dor que em Mim arde?,
ínfimo de ser irreal,
tudo afinal
é igual.
Mestre, ó Mestre,
dos Sonhos límpidos que aquietam,
recomeça ao meu lado
e vamos debruar o tecido da vida
a oiro e prata e diamante
a cada instante.