terça-feira, 14 de junho de 2011

Sete Léguas


Hoje fiquei perplexa: não foi o silêncio da manhã

nas ruas solitárias de Lisboa, às sete horas, no amanhecer;

nem foi a rotina de um trabalho, quase já mecanizado,

que promove o sucesso sem mérito; foi, antes, sim, a

perplexidade face aos mecanismos da mente humana.

Imperscrutável,já o suspeitava, a loucura pode adquirir a forma luminosa

da poesia e até confundir-se com o amor. Talvez, não exactamente,

com o amor, mas com a paixão intensa e fulminante, que, sem dúvida,

não é senão um fragmento, talvez grotesco, do sublime. E o

sublime não é outra coisa que não uma imensa paz e quietude,

que silenciosamente se sente. Que leva um ser humano a esta

forma de desequilíbrio? Como sucede que um ser inteligente e

brilhante se desagregue nesta ruptura interna? Nesta queda?

Não é explicável. Mas, certamente, de algum modo, quimicamente

no cérebro alguma coisa se desorganiza - e, quando isso sucede,

a loucura adquire a forma externa da natureza interna do indivíduo.

E, se, no mundo, o amor, a paixão, a poesia, desequilibradamente se confundem,

só podemos ter perdido para sempre a esperança fraterna e solidária e livre.

Se já não podemos confiar nos amantes e nos poetas, confiamos em quem?

Por isso, na esquina que não dobrei, e na rua, frente ao jardim,

que não percorri, sei, seguramente, que um velho sábio aguardava

calma e serenamente para me dizer, sem equívocos,

«Agarra este instante, G., agarra este instante».

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